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Lydia
Maria, uma
vida entre o lar
e os auditórios
Por
Marivaldo Afonso Krieger
Subeditor do suplemento Games e Entretenimentos
Lydia
Maria Barsoleti tem um orgulho, além dos seis filhos e
dos oito netos: ela passou 45 dos seus 64 anos de vida freqüentando
shows de auditório, 25 deles nos tempos do rádio
e o resto, da televisão. Um dos programas da época,
que ela chama de "meus tempos de deslumbrada", na cidade
de Juiz de Fora, em Minas Gerais, foi o "Show de Calouros
e Prêmios do Mazinho Trindade", que Lydia freqüentou
durante 15 anos, "sem faltar um só sábado,
nem mesmo quando eu fiquei doente com um princípio de pneumonia",
segundo afirma. "Eu mal me agüentava em pé, mas
não perdi nenhum programa. Além do mais, o Mazinho
era um rapaz muito bonito e as meninas viviam atrás dele,
e eu também", ela confessa com um sorriso malicioso.
Lydia conta que uma vez um americano que conheceu numa emissora
de televisão disse que ela seria com certeza a pessoa que
freqüentou por mais tempo programas de rádio e televisão
em todo o mundo. "Ele falou que eu podia até me considerar
a campeã mundial, bastava eu provar que fiquei mesmo 45
anos em auditórios de rádio e TV. Mas de que jeito
eu vou provar uma coisa dessas? Como eu não estou mentindo
e vivo nesse batente desde os 14 anos, me considero a campeã
do mundo. Se tiver alguém por aí com mais tempo
do que eu, é só se apresentar", ela desafia.
Lydia mostra um grosso álbum com muitas fotografias tiradas
ao lado de seus ídolos do rádio e televisão
durante todos esses anos. São dezenas de fotos, cada uma
delas com anotações nas costas, como data, local
e quem são os fotografados. Entre as suas prediletas, exibe
com orgulho uma foto em que aparece, aos 15 anos, sendo beijada
por Mazinho Trindade. "Ele era lindo, um verdadeiro pedaço
de mau caminho",como a gente dizia na época".
Ela abaixa a voz e conta como segredo: "Quer saber de uma
coisa? Eu cheguei até fazer uma mala com roupa e ir pro
auditório pra fugir com o Mazinho. Mas minha mãe
descobriu e foi um escândalo que nem tem conto. Ela me deu
uns tabefes na frente de todo mundo.Eu fiquei com tanta vergonha
que nunca mais fui ver o programa de auditório dele".
Chega
a televisão
Lydia
lamenta que alguns dos mais famosos "animadores de auditório"
, como eram conhecidos nos anos 40 e 50, não conseguiram
sair do rádio e chegar à televisão. "Gente
bonita e famosa como o Mazinho, o Barbosa Júnior, o Amauri
Lucena o Bernardinho Gonçalves, o César de Alencar,
o Manoel Barcelos, o Barriquinha, o Pepe Lovestar, o Alcides Monclair,
isso sim é que era turma boa. Eu ia no programa de todos
eles e como alguns duravam até cinco horas, eu levava uma
marmitinha com comida e comia lá mesmo", ela relembra.
"Além de lindos, eles tinham vozes maravilhosas.Mas
quando a televisão foi crescendo, eles foram sumindo. Alguns
tentaram ainda ir para a TV, mas não conseguiram".
Com o progresso da TV, Lydia explica que se adaptou a uma nova
carreira, tornando-se o que chama com orgulho, "fãzoca
de auditório de televisão". Ela faz questão
de acrescentar: "Essas macacas de hoje, que rebolam quase
nuas nos auditórios da televisão, se oferecendo
pra quem quiser, são garotas estranhas, que não
têm nada a ver com as mocinhas alegres e inocentes daquela
época".
Só
três netos
Ela conta: "Uns 30 anos atrás, eu ia a nada menos
que cinco programas de auditório por semana.Ganhei poltrona
na primeira fila de todos eles. Quem sentasse no meu lugar, era
convidado a sair, fosse pelo astro do programa ou pelos seguranças.
Meus lugares eram sagrados, ninguém sentava neles. Em retribuição,
passei a comandar as palmas, os risos, as gargalhadas e as vaias".
Segundo conta, nessa época já era casada, e mãe
de três filhos, e conciliar os deveres de casa com a paixão
pelos auditórios era uma dura batalha. "Meu primeiro
marido me deixou porque eu ficava mais nos programas de rádio
do que em casa. Aconteceu a mesma coisa com meu segundo marido.Quando
tinha um artista muito bom, ou convidados especiais, como Tadey
Borzino e o Fernando Borel, o maior cantor de boleros que eu já
vi, não tinha conversa, eu largava tudo e entrava na fila
logo pela manhã. Cheguei uma vez até a levar meu
filho pequeno pro auditório pois ele não tinha com
quem ficar".
Hoje, aos 64 anos, com netos para cuidar, Lídia lamenta
não ter tanto tempo para ir aos programas na televisão.
Mas continua indo cinco vezes por semana a vários shows.
"Meu predileto, e não perco um só, é
o Show do Velomar DiHolanda, na Rede BrasilShow!. Que homem bonito
que ele é, e como é inteligente", Lídia
afirma. E confessa uma decepção: "Dos meus
oito netos, só três, o Wanderlander, de 11 anos,
o Velomar, de 10, e o Mazinho, de 9,gostam de me acompanhar aos
auditórios. Todos os outros só querem saber de estudar.
Nem imagina a tristeza que isso me dá".
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