Wurzein cansou
de ser sempre
o último da fila

Por Eponina Gomes Silles
Da nossa equipe de free-lancers

Mathias Wurzein, um engenheiro eletrônico de 57 anos, nascido na Alemanha, mas vivendo no Brasil desde os 10 anos, é um daqueles homens que diz ter muitos problemas com seu nome. O motivo, segundo ele, é que "pelo menos na ordem alfabética, em que as pessoas são chamadas pelo nome, eu sou sempre o último da fila,o que me faz esperar muito mais tempo que outros, além de me deixar sozinho em locais que, alguns minutos antes, e às vezes horas antes, estavam cheios de gente. Sem falar que sou um dos últimos na lista telefônica".

Com seu sobrenome, "Wurzein", ele explica, não há como evitar. "Uma vez, na eleição para a nova diretoria do meu clube de campo", ele conta, "cerca de 300 sócios esperavam a vez de votar. Nossa turma estava num bate-papo, trocando idéias e jogando conversa fora, e um amigo nosso, o Beto Abatino, foi o primeiro a ser chamado, pois a votação era em ordem alfabética. E eu brinquei com ele dizendo que a gente se encontraria na madrugada para comemorar a vitória dos nossos candidatos. Ele brincou comigo também dizendo que, com o meu sobrenome, nem na manhã seguinte eu teria votado. Não chegou a isso, claro, mas faltou pouco".

Silvas e Wangs

Wurzein diz que às vezes imagina como seria sua vida, pelo menos quanto às filas por ordem alfabética, se se chamasse Silva ou Wang. Ele conta que leu outro dia numa revista que devem existir no país mais de 4 milhões de "Silva",o nome mais comum no Brasil. "Imagine então se eu vivesse na China e me chamasse Wang, Li ou Zhang.Segundo estatísticas do governo de lá, existem nada menos que 291 milhões de chineses com esses três nomes.Já imaginou? É mais do que a população dos Estados Unidos".

Ele diz que se tivesse um desses nomes populares, talvez se sentisse pior ainda do que se sente com "Wurzein", que define como "último da fila". Segundo afirma, "em vez de me sentir excluído ou solitário, eu ficaria assustado por ter um nome tão comum, igual ao de milhões de outros".

Suas queixas não o impedem, porém, de filosofar sobre o seu e outros nomes. E lembra duas histórias, uma, extraída da ficção e a outra, da realidade, que por sinal aconteceu com ele mesmo. "Toda vez que me queixo dos problemas com o meu nome, lembro-me de um sábio antigo, cujo nome esqueci, que disse que a vida é uma grande fila. Se você inveja aqueles que estão na sua frente, olhe sobre o ombro e veja quantos estão atrás de você".

A segunda história, do qual ele próprio foi protagonista e que mudou um pouco seu pessimismo em relação ao seu nome, aconteceu numa repartição do governo, onde Wurzein precisava tirar um documento, e havia dezenas e dezenas de pessoas. "Claro que eu ia ser o último da lista. Ou pensei que seria o último.Ao meu lado estava um senhor de cabelos brancos,aparência distinta, lendo um jornal. Só nós dois tínhamos sobrado. Fiquei curioso e puxei conversa com ele.Aí fui chamado e ao me despedir, ele disse: 'Muito prazer, meu nome é Francisco Zyklus'. Então, vieram à minha cabeça as palavras do tal sábio. Com um nome desses, ele tinha mesmo que ser o último da fila. E atrás de mim".