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O
pedido de meu editor brasileiro para que eu escrevesse um artigo
sobre folclore (o mês de agosto, aí no Brasil, é
dedicado a tal atividade) foi uma grata surpresa para mim. Nem
sei ao certo se foi provocação ou apenas uma forma
de comemorar a efeméride. Apesar de ter escrito um livro
sobre o tema (A Inutilidade do Folclore), não me
considero especialista. Há coisas mais importantes a estudar.
Nós,
ingleses, melhor dizendo, britânicos, praticamente não
temos manifestações folclóricas, embora,
de certa forma, manter a monarquia, com rainha e cerimonial correspondente,
Câmara de Lordes e de Comuns, e um museu de cera, em pleno
século 21, não deixe de ser folclórico. Nós
apenas inventamos a palavra folclore (folk, do povo,e lore,saber).
Mas, felizmente, não levamos muito a sério quase
tudo que inventamos. (Veja-se, a propósito, o futebol,
o tênis e o golfe, dentre outros jogos).
Meu
primeiro contato com esse tema aconteceu no início da década
de 70, quando fiz parte da banca examinadora da tese de mestrado
de uma jovem irlandesa, com razoável fluência em
português e espanhol, bolsista da Fundação
Gulbenkian. Ela estivera em Lisboa para treinar o idioma, antes
de partir para o Brasil, onde passou cerca de três anos
fazendo pesquisas e recolhendo material de campo para a tese.
Sua proposta era arrojada: refazer a rota seguida nos anos 30
por Mário de Andrade, em suas andanças pelo país,
que ficaram conhecidas como Viagens de um Turista Aprendiz.
Antes
de continuar, esclareço ao leitor que, provavelmente, os
britânicos tenham inventado o termo folclore para melhor
estudar hábitos, costumes, crenças e tradição
oral dos diferentes povos do seu outrora vasto império
colonial. Tratava-se de entender os valores dos dominados para
usá-los em benefício dos interesses da Coroa. Não
fomos os primeiros a fazer isso. Dois milênios antes, os
romanos já diziam a respeito dos habitantes das províncias
anexadas: "Eles podem fazer o que quiserem, desde que obedeçam
às nossas leis e paguem os impostos em dia".
Mas,
voltando à tese da estudante irlandesa, ela ficou fascinada,
de acordo com suas palavras, "com a riqueza do material recolhido
principalmente nas regiões Norte e Nordeste". "Professor",
disse-me, completamente deslumbrada, "imagine só que
batalhas entre cristãos e mouros, travadas há quase
um milênio, perduram até hoje no imaginário
popular dos brasileiros daquelas regiões".
Fingi
surpresa para não decepcioná-la e lhe perguntei
que papéis eram mais disputados nas simulações
das batalhas. Ela respondeu no ato: "A vontade de interpretar
cavaleiros cristãos é tão grande que tais
papéis são reservados antecipadamente e em rodízio
para os participantes mais velhos dos grupos folclóricos".
Antes
de eu ter tempo para qualquer comentário, ela acrescentou
que as pessoas mais pobres das comunidades rurais, onde periodicamente
costumam se desenrolar aquelas manifestações, sempre
as lideram, sendo raras e esporádicas as participações
de pessoas mais cultas e socialmente privilegiadas.
Em
seguida, elaborou sofisticada teoria antropológica e social,
de acordo com a qual, em última análise, as pessoas
mais humildes da comunidade procuravam compensar a exclusão
social em que viviam por papéis e personagens mais importantes
na ficção, representada, no caso, pela encenação
folclórica das batalhas entre mouros e cristãos.
Em
outras palavras: se você não pode mudar a realidade,
principalmente quando lhe é adversa, então mergulhe
de cabeça na ficção. Ingenuamente, de boa
fé, e sempre vendo o lado bom das coisas, deduzi que ela
acabara de descobrir a secular manipulação da realidade.
Para
sacudi-la do transe de ingenuidade, perguntei-lhe se dera conta,
em sua pesquisa, de que os heróis das festas folclóricas
eram tratados pelos poderosos das comunidades rurais como "mouros"
a serem expulsos de seu próprio país. Arregalou
os olhos e, entre indignada e surpresa, respondeu: "Não
tinha pensado nisso".
Nunca
mais ouvi falar dela nos meios universitários londrinos.
De tal sorte que não me surpreenderia se, de repente, fosse
vista por algum amigo brasileiro no sertão do Cariri, participando
de algum reisado, bumba-meu-boi, caboclinho ou algo parecido,
vestida de infanta católica ou de odalisca moura. É
a vida!
Não
consigo enxergar qualquer diferença substancial entre manifestações
folclóricas, principalmente as que incluem dança
e música. Do Cazaquistão à Terra do Fogo,
do Círculo Polar Ártico à Papua Nova Guiné,
é sempre a mesma coisa: mulheres de saias rodadas, camisas
de renda e xales de cores berrantes, dando volta, de mãos
dadas, num sentido; enquanto os homens, de chapéus enormes,
caras de maus, adagas à cintura, e botas com esporas giram
em sentido contrário, batendo palmas. Se você viu
um desses espetáculos, viu todos.
As
festas folclóricas camponesas foram chamadas de irmãs
gêmeas da "idiotia rural" por Groucho Marx, o
filósofo(não confundir com Karl Marx e Friederich
Engels, famosa dupla de coreógrafos e bailarinos alemães,
que fizeram enorme sucesso nas populares comédias de costumes
de Hollywood), em seu ensaio Admirável Mundo Lúmpen.
Marx vê nelas uma tentativa, historicamente mal-sucedida,
de o homem simplório do campo preservar seus valores, diante
da fúria iconoclasta com que a Revolução
Industrial se abateu sobre o mundo.
Para
Groucho Marx, a religião era o ópio do povo. Santa
ingenuidade! Ele morreu bem antes do surgimento da propaganda,
das olimpíadas modernas, do rádio, do futebol, das
grandes festas populares, como o carnaval brasileiro, e a diablada
boliviana, por exemplo; do cinema e da televisão. O povo
hoje está tão sofisticado que, para explorá-lo,
os poderosos lhe oferecem não apenas ópio mas também
maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy etc.
Preciso
reconhecer, todavia, que do mesmo modo como Marx fez clara distinção
entre o lúmpen proletariat rural e urbano, antecipando
a supremacia deste sobre aquele, o folclore das cidades é
infinitamente bem mais rico que o do campo. Embora ambos mantenham
a mesma origem e idênticas raízes - os clichês
do macho idiota e rural, urbano e da fêmea idem - , sou
obrigado a admitir a multiplicidade dos estereótipos urbanos,
que vivem se contrapondo uns aos outros e, desse modo, acabam
por sofisticar-se cada vez mais.
Darei
a seguir alguns exemplos pessoais de folclore urbano, que aprendi,
aí no Brasil, com meu amigo Gastão Lacarte, professor
e mestre cuca-chefe da Escola de Gastronomia Jandaia, fundada
por ele em São Paulo. Descendente de franceses e bascos,
radicados no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, nós
(eu e alguns amigos jornalistas, que conheci durante minha temporada
de professor visitante da Universidade de São Paulo, a
famosa USP) o chamávamos de Descartes caboclo. "Como,
logo existo", costumava dizer-nos, enquanto preparava algumas
de suas iguarias.
Da
mesma forma que seu ilustre antecessor e filósofo, Gastão
também cultivava a dúvida como método filosófico.
"Nunca sei se devo comer duas ou três pizzas, aquelas
de massa fina, como aperitivo" , vociferava, entreabrindo
a porta da cozinha do restaurante-escola onde costumávamos
nos encontrar todas as sextas-feiras.
Sempre
ríamos muito com suas definições. Para ele,
o inglês (a pessoa e o idioma) era o português que
deu certo. E o alemão era o português que sabia matemática.
Apesar de tamanha sabedoria, admitia, com orgulho, jamais ter
lido um livro, nem ter assistido a qualquer filme. "Perde-se
muito tempo", dizia, enquanto engolia meia dúzia de
empadas de camarão, regadas a cerveja estupidamente gelada,
bem ao contrário daquela que se bebe nos pubs londrinos.
Compare
só, leitor, a inteligência e a verve dessas frases
com a monotonia das danças folclóricas. Confesso
a vocês ter aprendido muito mais, nas alegres noitadas do
Jandaia, do que em todos os livros que, por dever do ofício,
me obriguei a ler.
O
tema é vasto e interessante. Por isso, voltarei a me ocupar
dele nos próximos artigos.
(*)
Kenneth Goodson é PhD em Antropologia Urbana
pela Universidade de Oxford, economista especializado em países
emergentes e autor de diversos livros, dentre os quais, "Folklore,
What For?", traduzido no Brasil como "A Inutilidade
do Folclore". |