Sentença de juiz
condena cantor
a ouvir rock e
ópera por 15 dias

Por Givanildo Jatobá Moreira
Subeditor do suplemento Comida Light e Receitas

O juiz Ariovaldo Mello Galveia, cujas sentenças inusitadas vêm despertando polêmica, aplausos e críticas, volta mais uma vez ao noticiário. Adepto das punições exemplares, em vez de penas de detenção ou prisão, que considera inúteis, ele condenou ontem um réu a ouvir durante 30 minutos, diariamente, e pelos próximos 15 dias, uma "seleção" de músicas que vão desde as do conjunto techno "Jesus is Calling" até óperas dinamarquesas modernas, boleros do equatoriano Juan Vieja Mostaza e sambas hip hop do grupo vocal paulista Neurônios da Garoa.

O réu, o cantor e poeta Stevens Valdomiro Lins, foi condenado pelo juiz depois de ter sido detido a semana passada pela polícia, bêbado e nu, em seu apartamento, onde ouvia músicas em alto volume, às duas horas da madrugada. Os vizinhos deram queixa, a polícia apareceu e Stevens resistiu à prisão, ameaçando agredir um dos policiais. Essa foi a terceira vez que os vizinhos reclamam do barulho no apartamento do cantor.

Surpreso com a inesperada decisão do juiz, Stevens considerou-a dura demais. E explicou que foi tudo provocado pela emoção, pois seu primeiro CD, "Bye, Bye Paixão Que Parece Nunca ter Fim", que ouvia sem parar quando foi detido, acabou de ser lançado e ele decidiu comemorar, "com umas e outras",segundo conta. "Será que esses vizinhos pentelhos não conseguem compreender minha alegria?", perguntou no tribunal. "E quando eles ouvem aqueles horrores no apartamento do lado? Nunca reclamei na polícia", Stevens justifica.

O juiz foi mais longe na sentença, determinando que caberia aos queixosos a escolha das músicas que servirão como punição ao cantor. Os queixosos disseram que as músicas escolhidas encerram "um verdadeiro barulho do inferno para qualquer ouvido civilizado".

Respeito aos vizinhos

Lucas Bibes Sturm, o vizinho do lado, apaixonado por ópera moderna dinamarquesa e música folclórica alemã da Baviera, onde nasceu, diz que agüentou em silêncio, durante semanas, a barulheira que vinha do apartamento do lado, até que, com outros 12 moradores, decidiu chamar a polícia. Mariá Ibañez Caldera de los Rios, outra moradora do mesmo andar, explica que, como bailarina de flamenco, ensaia diariamente no seu apartamento, mas jamais tocou seus discos alto demais. "Respeito meus ouvidos e meus vizinhos", ela afirma. Bibes Sturm confirma com a cabeça.

Na sua sentença, o juiz Mello Galveia determina que a pena de Stevens seja cumprida pela manhã, numa sala isolada do tribunal, com a presença constante de um oficial de Justiça, a quem solicitou que use tapa-ouvidos ou se proteja do barulho ouvindo um walkman, "com as músicas que desejar".