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Só
há um uma atividade humana em que pobres podem se igualar
e até mesmo sobrepujar os mais ricos: trata-se dos esportes,
em geral, e do futebol, em particular. A geografia esportiva é
a que mais radicalmente costuma divergir da geografia política
e econômica dos países. As grandes potências
econômicas, por exemplo, nem sempre são as primeiras
nos rankings esportivos. Talvez isso seja apenas um consolo para
os pobres, mas e daí?
Se
a globalização econômica parece, pelo menos
até agora, fadada a marginalizar os mais pobres e também
os países emergentes, o mesmo não ocorre necessariamente
no fantástico mundo da bola, no qual Brasil, Argentina,
Uruguai, Colômbia, México e outros menos cotados,
como Coréia, Senegal, Camarões, Nigéria,
Tunísia e África do Sul entram em campo com ares
e desdém de 1º Mundo, enquanto grandalhões,
sardentos e supernutridos suecos, ingleses, alemães, italianos,
americanos e franceses tremem diante do poderio dos subdesenvolvidos.
É
uma doce e fugaz vingança. Cada drible aplicado nos gringos,
aterrorizados diante da possibilidade de serem vítimas
de uma seqüência deles, traduz-se, aos olhos de milhões
de incrédulos telespectadores, num salutar atestado de
mediocridade dos mais desenvolvidos. Sem palavras, mas com gestos
de um balé coletivo hipnótico, o mirrado jogador
subdesenvolvido parece dizer a seu marcador: "Você
tem curso superior, vive melhor do que eu, me explora, mas, aqui,
no mano-a-mano, você vira um joão-bobo".
Tá
bem, os ricos são protecionistas, impedem a entrada de
imigrantes estrangeiros em seus "paraísos" globalizados,
exigem mil favores fiscais dos governos para levar suas indústrias
poluidoras para os países mais pobres, mas, em campo, onze
contra onze, tremem, impotentes, diante do poderio da criatividade
e da improvisação.
Como
nós, ingleses, dizemos, "nós inventamos a maioria
dos esportes e os outros é que os vencem". Outro dito
muito popular na Inglaterra, e na Europa toda, caiu por terra
depois que o Brasil conquistou o pentacampeonato, ao derrotar
os alemães por 2 a 0. O futebol, lembram, conformados,
os britânicos, "é um esporte inventado por nós,
que o mundo todo pratica, e que, passados os 90 minutos regulamentares,
a Alemanha vence por 1 a 0". Pois bem, desde a final com
o Brasil, nós, ingleses, comemoramos, eufóricos,
a mudança da última parte da frase para "a
Alemanha perde por dois a zero".
Depois
de assistir à partida entre brasileiros e alemães,
é impossível, pelo menos para os mais politizados,
deixar de fazer algumas comparações. Por exemplo:
cada gol marcado equivale a um olé em Wall Street; cada
ginga é um chapéu na City londrina e cada defesa
de Marcos é um chega pra lá no risco Brasil. É
como se, num passe de mágica, no faz-de-conta onipotente
do futebol, cada miserável, morador de favelas paulistas
ou cariocas, se transformasse em cidadão pleno, com emprego,
saúde, educação, segurança, e aposentadoria
decentes.
Como
diria Shakespeare, infelizmente, isso, por enquanto, é
apenas um sonho de uma noite (manhã) de verão, lá
na terra no sol nascente.
Mas,
mudando de sonho para pesadelo, o ponto fraco e questionável
dessa recém-encerrada Copa globalizada dos pobres foi mesmo
a suspeita atuação dos juízes. Do mesmo modo
como os países ricos defendem o livre comércio da
boca pra fora, mas fecham seus mercados para os produtos provenientes
dos mais pobres, estes se vingam escalando juízes despreparados
(ou seriam mal-intencionados?) para apitar partidas importantes.
Foi
assim que a Coréia, que juntamente com o Japão foi
uma das sedes da Copa, graças a alguns apitos a mais de
juízes e à omissão de bandeirinhas, conseguiu
chegar à disputa do terceiro lugar, embora perdendo para
a Turquia. A "poderosa" Coréia do Sul, é
claro, eliminou nada menos do que Portugal, Itália e Espanha,
três fortes candidatas ao título. O Brasil também,
na primeira e segunda fases, recebeu a benevolência de árbitros
escalados pelo trio Jean Arrevanche, um haitiano naturalizado
brasileiro; Hiparco Noxeirra, seu ex-genro; e o suíço
Joseph Emblaster, mais conhecido na intimidade como "Mão
de Gato".
Mas
e daí, questiona o apaixonado torcedor. Por acaso Portugal
não carregou durante séculos o ouro brasileiro para
o "jardim à beira-mar plantado?" E os espanhóis
não fizeram o mesmo com as riquezas das ex-colônias
latino-americanas? E o que dizer dos italianos que, embora não
tenham tido colônias para explorar, roubaram a esperança
de todas as nações do mundo ao inventarem, egoisticamente,
o humanismo? Pois é, agora, a única saída
que restou à humanidade é praticá-lo.
"É
uma pena não terem roubado a seleção americana",
desabafa, por telefone, um scholar, com quem compartilhei
pesquisas históricas no Arquivo Público do Rio de
Janeiro.
Conforme
eu havia antecipado aos leitores do "SacolãoBrasil",
no início do ano, o Brasil foi mesmo penta. Com esse título,
espero que o governo baixe os juros, reative a economia, crie
empregos e dê um pontapé no traseiro de especuladores
que, em nome de uma crise hipotética, andam enviando dólares
(uma moeda já em processo definitivo de enfraquecimento)
para o Exterior.
E
haja cerveja para lavar o Pelourinho!
(*)
Kenneth Goodson é PhD em Antropologia Urbana por
Oxford e autor, dentre outras obras, de "Futebol, um dos
Vários Ópios do Povo", "Vai Trabalhar,
Especulador" e "Da Inutilidade do Folclore".
Colaborou
neste artigo esportivo Dilermando Tranqueira.
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