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A
pergunta não é piada. E foi feita, recentemente,
pelo sociólogo francês Elan Bourraine, amigo pessoal
e admirador do presidente brasileiro. Para o ilustre scholar
gaulês, a Argentina como país e nação
estaria em processo de liquidação. O motivo, segundo
ele, é que, por aquelas plagas, desde o governo Melem,
não se produziu nada. De repente, com a paridade de um
por um entre dólar e peso, todos passaram a especular e
a viver de rendas. O resultado, como o leitor já sabe,
foi trágico.
"Lo
que más bronca me dá, es haver sido tan gil",
diz a letra de Cambalache, um tango profético e
emblemático, que poderia ser adotado como hino nacional
informal de toda a América Latina.
Traduzindo:
o que mais me chateia é eu ter sido tão otário.
Em outras palavras, os platinos, de repente, resolveram dar uma
de Gerson (aquele jogador brasileiro que, numa propaganda de cigarros,
dizia querer levar vantagem em tudo, esquecendo-se de que a cada
tragada aumentava a chance de ter câncer no pulmão.
Pobre
Argentina! Segundo Bourraine, há muitas pessoas ilustres
nascidas lá, como Borges, Cortázar, Gardel, Piazzola,
Maradona, Gato Barbieri e outros, mas já não se
pode falar em algo parecido com um país. Antes da fictícia
paridade entre o peso, sem lastro, e o dólar, introduzida
pelo ex-todo poderoso, Sábato Centauro, atualmente puxando
cana, outro ex-ministro, Fernandez de la Foz, no início
da década de 80, já dera um duro golpe na indústria
local. "Vamos comprar tudo o que for mais barato lá
fora", sentenciou, em tom solene, típico dos insanos.
Aliás,
a década de 80 foi particularmente cruel para a pobre Argentina.
Naquela época, um ensandecido triunvirato militar resolveu
vingar a derrota sofrida pela Invencível Armada,
de Felipe 2º, uma esquadra de 130 navios de guerra, que o
corsário Francis Drake e o notório mau tempo que
castiga 12 meses por ano a "pérfida Álbion"
puseram a pique em alguns dias, em julho de 1588.
Pois
foi no mesmo mês de julho, só que em 1982, que a
Argentina invadiu as Ilhas Falklands (Malvinas para os argentinos),
habitadas por dois mil kelpers, pacíficos criadores
de ovelhas, súditos da rainha da Inglaterra. A chegada
dos platinos provocou alvoroço entre os ilhéus,
que receberam os visitantes com festa e fanfarra, pensando tratar-se
de alegres marinheiros escoceses, que ali aportam periodicamente,
com suas desafinadas gaitas de fole, para descarregar enormes
tonéis do bom e velho scotch.
Não
passava pela cabeça dos milicos que a Inglaterra fosse
defender seus súditos, perdidos no meio do Atlântico
Sul, distantes quase 20 mil quilômetros da metrópole.
Mas
que estranha maldição pesa sobre esse povo, que
parece trazer incutido na alma o gosto pela tragédia, expressa
nas letras de seus maravilhosos tangos? No início do século
20, a Argentina era apontada, por unanimidade, como o paraíso
terrestre. Lá, diziam, esperançosos, os europeus,
cansados de tantas guerras, havia trigo e carne bovina em abundância
jamais sonhada.
Era
um país enorme para os padrões europeus, com quase
três milhões de quilômetros quadrados, terras
férteis, população pequena, já quase
toda alfabetizada, e baixa taxa de natalidade. Até hoje,
Buenos Aires tem mais livrarias do que o Brasil inteiro.
O
século 20 passou e a Argentina, candidata natural a se
transformar em uma Suíça latino-americana, vive
hoje um tango trágico, com mais da metade da população
mergulhada na miséria.
Algumas
vezes, uma anedota explica melhor a realidade do que números
e teorias sociológicas. Numa das minhas últimas
visitas à Argentina ouvi a seguinte história: "Você
sabe como se faz para colocar quatro portenhos (natural de Buenos
Aires) num Volkswagen?", pergunta Ricardo para seu amigo
Jorge (eles adoram nomes ingleses). Este balança a cabeça,
dando a entender que não tem a menor idéia. Aí
vem, rápida, a resposta: "É simples. É
só espetar um alfinete no ego de cada um".
Mas
a verdade é que, se nada for feito, a corrupção
vai acabar por matar a galinha (Argentina) dos ovos de ouro. E
não há Perón, nem Evita que o impeçam.
Para
tentar entender o que se passou por lá, sou obrigado a
recorrer à biologia. Conta a lenda que Mendel, o pai da
genética, que também era voyeur de ervilhas,
nas horas vagas, tentou fazer um cruzamento entre o rabanete,
uma raiz cujas folhas são jogadas fora, e o espinafre,
cujas raízes não são comestíveis.
Ele pensou em obter um supervegetal híbrido, com a raiz
do rabanete e as folhas do espinafre. Terminada a experiência,
constatou, desolado, que o resultado obtido foi exatamente o contrário:
o vegetal híbrido tinha raiz de espinafre e folha de rabanete.
Na
Argentina, ocorreu algo parecido. A mistura de descendentes de
espanhóis, a chamada oligarquia criolla, e imigrantes
italianos, com poucos descendentes de índios, para acomodar
as duas etnias, parece não ter dado certo. Espanhóis
e italianos só têm em comum o fato de serem de índole
anárquica. Os primeiros tentaram subjugar os segundos e
o resultado foi o tango.
Ao
contrário do que ocorreu no Brasil, nos Estados Unidos,
no Canadá e na Austrália, onde italianos se deram
razoavelmente muito bem com as oligarquias locais e as outras
etnias de imigrantes, no rio da Prata, isso não aconteceu.
Infelizmente,
para os 32 milhões de argentinos. A solução,
no futuro, talvez seja o Brasil enviar para lá alguns milhões
de híbridos que deram certo!
(*)
Kenneth Goodson PhD em Antropologia Urbana, economista
especializado em países emergentes é autor de vários
livros, dentre os quais
A Patativa de Santelmo e O Espelho de Gardel.
Colaborou
neste artigo a jornalista Carmen Golondrina,
do El Clarón.
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