Lembranças da Madame Lavínia

Quando comecei minha carreira de hostess numa famosa casa do interior paulista, tive a sorte de ser orientada pela dona, que todos na cidade conheciam como Madame Lavínia. Era uma figura e tanto. Bonita, belo corpo, apesar de seus 60 e poucos anos. Ela dizia que tinha 40, mas eu sabia a idade verdadeira, pois uma vez olhei os documentos dela e descobri também que tinha nascido na Rússia. Lavinia parecia vir de uma família de gente fina, pois era educada, jamais falava alto, nunca disse um palavrão e estava sempre elegante.

Um dos conselhos dela que nunca esqueci é que a nossa profissão exige elegância e educação, e você pode fazer o que quiser no local de trabalho, entre quatro paredes. Fora dele, tem de manter a postura, custe o que custar. Lembrei muito da Madame Lavínia outro dia quando foi convidada para uma recepção na casa de um velho amigo e cliente. Claro que não vou dar o nome dele. Isso foi outra coisa que Lavínia me ensinou: seja sempre discreta, muito discreta, e os homens, principalmente os casados, vão adorar.

O local era de gente fina, muito rica, e ele recomendou que eu vestisse a melhor roupa que eu tenho e que me produzisse muito, para ficar bem bonita.Só quando cheguei lá e fui apresentado a uma senhora muito elegante é que descobri que meu amigo me convidou para uma festa na casa da tia dele. Fiquei furiosa e com medo. O que será que ele pretende?, eu fiquei perguntando. Até agora eu não descobri, pra dizer a verdade.

Mas o que eu quero dizer aqui é que, muito antes de saber de quem era aquela casa, eu me portei muito bem, com educação e fui muito discreta, lembrando sempre o que a saudosa Lavínia tinha me ensinado. Não vou exagerar, não é coisa minha, mas eu estava muito bonita, num vestido longo preto e não foram poucas as cantadas que levei naquela noite. Nem conto quantos homens me passavam a mão disfarçadamente.

Levei um susto quando uma moça muito bonita, meio embriagada, me passou uma conversa e tentou me levar para o quarto e disse que queria me mostrar sua coleção de vestidos, pois viu logo que eu era uma mulher de bom gosto. Posso não ser gente fina e rica, mas esse tipo de conversa nunca me enganou, conheço todas as cantadas do gênero. Claro que não fui. Quando voltei para casa, fiquei pensando muito na Madame Lavínia e o que ela podia ensinar a toda aquela gente tão fina e tão rica.