Morte de embalsamador
pode encerrar milenar
tradição de família egípcia

Por Gustave Ascaride Creux
Correspondente

Paris - Com a morte de Farid Gamal Moutaab pode chegar ao fim a milenar tradição de uma família de embalsamadores egípcios, que afirma ter nos faraós a origem de seu negócio.Moutaab, que morreu anteontem em Paris, aos 95 anos, era o patriarca da família e teve entre seus clientes mais famosos dois papas, oito presidentes, cinco mafiosos e dezenas de celebridades cujos nomes são mantidos em sigilo até hoje pela empresa, intitulada My Mummy, com sede na capital francesa e representantes em 14 países.

O segredo do negócio, de acordo com o filho mais velho de Farid, Gamal Asabi, de 77 anos, é absoluta discrição. "Nosso negócio envolve muitas questões delicadas, que vão desde a morte violenta, a comoção da família, até a conservação do corpo, que envolve aspectos bastante pessoais, filosóficos e morais", explica Asabi. "Então, temos que manter tudo dentro da mais discreta e respeitosa tradição.Como explicar para o mortal comum que essa ou aquela família mantém em algum lugar da casa, ou num mausoléu o corpo embalsamado de um parente querido?" Ele garante, porém, que seu pai será sepultado num cemitério francês, como qualquer mortal.

Segundo o filho do patriarca morto anteontem, a decisão de embalsamar uma pessoa traz à tona tantas e tão complicadas questões que sua empresa só aceita a tarefa após quatro dias de negociação com a família, assessorada por dois advogados (um para cada uma das partes), o membro mais idoso e responsável e até um religioso que represente a crença familiar.

"Isso sem falar no custo, que é bastante alto, pois envolve complicada e cara tecnologia. No caso da nossa empresa", explica Asabi, "além da tradição, que remonta aos tempos dos faraós do antigo Egito, até hoje segredo de família desenvolvemos exclusiva e moderna fórmula, usando, entre outros,o formaldeído, que conserva o corpo por muito mais tempo".

Mas o milenar negócio de embalsamar está ameaçado de chegar ao fim. Aos 77 anos, Asabi diz que está velho e cansado e vai se aposentar no fim do ano. Seu único filho, Gamal Garid, de 43 anos, é escritor, cineasta e teatrólogo e nunca se interessou pela ocupação da família. "Meu pai que me perdoe, jamais gostei da profissão. Me assusta e me deprime e nunca quis segui-la", ele afirma,

Mafioso sorridente

O próprio Asabi confessa que a ocupação do falecido pai e de seus ancestrais sempre o assustou também e revela que, se a seguiu, foi por imposição do pai.Sempre discreto em revelar o nome dos clientes, Asabi diz que a questão é delicada e bastante pessoal, pois além do sigilo natural de sua empresa, há também uma cláusula no contrato de embalsamamento que prevê multas milionárias para aqueles que revelem, sem autorização, o nome dos clientes.

Asabi confidencia, porém, uma indiscrição envolvendo antigo cliente, cujo corpo foi embalsamado e cujo nome não revela. "Foi um chefão do crime de Nova York, homem duro, cruel, de feições ameaçadoras, que morreu violentamente aos 79 anos, em 1959. A família nos pediu um esforço para amenizar e minimizar o histórico cruel desse mafioso, que faleceu como viveu, violenta e amargamente. Foi um dos nossos clientes mais difíceis. Para atender aos familiares, meu pai levou 15 dias para colocar no rosto do cadáver embalsamado um sorriso amável e civilizado. E quer saber? O mafioso ficou com cara de um santo sorridente, graças ao meu pai. Acho que foi o melhor e mais difícil trabalho da vida dele".