O melhor e o pior dos mundos

Na década de 70, quando fazia meu mestrado em Oxford, circulava no meio acadêmico londrino a seguinte anedota. O melhor dos mundos, dizia-se, logo após a Inglaterra ter sido admitida na então Comunidade Européia ampliada, era viver na Europa, com comida francesa, máquinas alemãs, organização inglesa, mulheres italianas e fisco suíço. A Suíça não fazia - como não faz até hoje - parte da Europa comunitária. Era, portanto, a única exceção permitida na piada.

A pessoa que ouvia a brincadeira já antegozava as delícias do paraíso terrestre, quando era advertida de que uma simples troca na ordem das coisas bastaria para transformar o Éden num purgatório ou até mesmo num inferno insuportável. Imagine só, caro leitor, a seguinte situação: comida inglesa, máquinas francesas, organização italiana, fisco alemão e mulheres suíças!

Hoje, passadas três décadas do contexto em que a anedota era contada, pode-se ampliar a lista de coisas boas e más existentes tanto nos países mais avançados como também nos emergentes da América Latina, Sudeste Asiático, África, Pacífico e Oceania.

Comecemos novamente pela Europa. À lista inicial das delícias terrestres, o felizardo cidadão comunitário daquele continente poderá na atualidade, com algum dinheiro para viagens e um pouco de sorte, acrescentar, por exemplo, uma amante sueca.

Já existe consenso entre os europeus de que as mulheres suecas são as mais lindas do planeta. Mas como desfrutar plenamente a maravilha que é ter uma amante sueca num clima que, durante o verão, com aurora boreal e tudo, beira os cinco graus abaixo de zero?

Quando falo em desfrutar plenamente, refiro-me ao direito à fruição visual de toda e qualquer coisa que contenha a beleza. Ora, em se tratando de uma sueca, a plena fruição só pode ocorrer em algum paraíso tropical (Bali, Polinésia, Tailândia, Havaí etc.) ou em algumas praias do Nordeste brasileiro.

Imagine só, leitor, você passeando distraidamente por uma dessas praias cheias de coqueiros e de mulheres exuberantes. De repente, alguém vem correndo na sua direção. É uma sereia, num maiô minúsculo, mas, coisa extraordinária, ela é bípede. Um trigal maduro orna-lhe a cabeça. Parece aflita e grita: "Where were you, my darling?" Obviamente, você vacila, não acredita no que está vendo, mas, antes de dizer qualquer coisa, ela - aquela coisa deslumbrante - já está enrolada no seu pescoço.

Mas isso me faz lembrar que, ao menos, Deus foi justo ao criar o mundo, pois, se esbanjou riquezas para alguns países, não se esqueceu de também dar belezas naturais a outros, geralmente pobres. Daí decorre o fato de que para ser feliz não basta apenas ser rico.

Enquanto esboçava este artigo, veio-me à cabeça a idéia de ampliar o melhor dos mundos para os países emergentes da América Latina. E, para começar, que tal mulher brasileira, carne argentina, vinho chileno e fisco uruguaio?

Mas e se o fisco for brasileiro, a carne chilena, o vinho uruguaio e a mulher argentina?

Saltemos, agora, num Atlas imaginário, da América Latina até a Ásia e a Oceania. Para castigar nosso infeliz cidadão globalizado, vamos colocá-lo no pior dos mundos, dando-lhe mulher australiana, comida indiana, organização japonesa e fisco chinês.

É preciso, contudo, tomar cuidado com as falsas maravilhas que a propaganda alardeia na mídia para atrair o incauto novo rico globalizado. Por exemplo: está na moda, na Bélgica, elevar às alturas de um Wagner ou de um Verdi, um certo Claude Trompeur, que, dizem seus admiradores, compôs, no século 19, a ópera O Garimpeiro de Antuérpia.

Tal obra não pôde ser montada até hoje porque, segundo a partitura e o libreto originais, a ação deve transcorrer em uma mina de diamantes, no Transvaal, a cem metros de profundidade. Um detalhe: os belgas não admitem cenários, nem figurinos artificiais.

Estudiosos escoceses, sempre orgulhosos de suas glórias nacionais, descobriram, na década de 80, nos arredores de Glasgow, a partitura de um oratório, composto, no século 18, possivelmente por um frade beneditino, para cravo e oboé.

Especialistas que ouviram a peça, após minuciosa reconstituição da partitura original, garantem que a beleza da melodia e da harmonia lembra peças de Bach, Vivaldi e Haendel.

O curioso é que no início do terceiro movimento o autor prescreve a entrada, junto aos demais participantes da orquestra, de uma banda de tocadores de gaita de fole. O efeito disso, reza a lenda, quando a obra foi executada pela primeira vez, na catedral de Santo André, foi tão fantástico que todos os gatos - que sabidamente têm ouvidos delicados e costumam apreciar música clássica - fugiram para a Inglaterra.

Mas fora do Velho Continente o incauto homem globalizado também corre o risco de comprar gato por lebre. Por exemplo, se você for à Bolívia para conhecer o lago Titicaca, e quiser dar uma esticada até Machu Pichu, nos Andes peruanos, jamais coma as empanadas, vendidas em tabuleiros, nas ruas e praças, por mulheres índias.

Trata-se de um pastel de massa grossa, recheado com miúdos de lhama e pimenta picada, frito em óleo de palma. Algumas tribos quéchuas, do Peru e da Bolívia, envolvem as empanadas em folhas de coca para atenuar os efeitos do soroche.

Alguns conhecidos e ex-alunos meus, em excursão pela América do Sul, não foram alertados pelos guias sobre os perigos dessas empanadas. O resultado: em menos de meia hora, tiveram de ser internados às pressas em hospitais locais. O desarranjo intestinal que elas provocam nas pessoas é muito pior do que o conhecido mal de Montezuma.

A sensação, segundo me relatou um scholar e professor de literatura hispano-americana da Universidade de Harvard, é de que você está correndo, no deserto de Atacama, em direção a um banheiro confortável e cada vez mais distante, seguido por uma legião de mongóis enfurecidos, liderados pelo próprio Gêngis Khan.

Portanto, se você, de repente, acordar cinqüentão, estimulado pela namorada, do tipo que adora desafios, e resolver virar mochileiro, cuidado com as falsas maravilhas, apregoadas nas capas da National Geographic. Não se esqueça de que são apenas belas fotos de uma natureza cada vez mais hostil a tipos urbanóides como você.


(*) Kenneth Goodson é PhD em Antropologia Urbana pela Universidade de Oxford e economista especializado em países emergentes. É autor de vários ensaios, dentre os quais A Total Inutilidade do Folclore.