Motorista diz que seu táxi
é um Brasil em miniatura

Por Dorian Gray Mamzer
Subeditor do Arquivo Cartográfico

Alberto Geld Verlogen, ex-engenheiro eletrônico e há 10 anos trabalhando como motorista de táxi, garante que não troca sua atual profissão por nada neste mundo, mesmo que ela não seja a sua especialidade. Ele foi uma das vítimas da crise econômica brasileira, após perder o emprego. Formado em engenharia eletrônica, com mestrado na Alemanha, ele exerceu a profissão durante mais de 15 anos no Brasil, até que a crise econômica o atingiu. Aos 44 anos, casado, pai de cinco filhos, foi demitido do emprego, junto com 32 outros engenheiros da sua empresa, e durante dois anos procurou em vão por trabalho. Para sobreviver, teve de pegar bicos, como vendedor de carnês de televisão, porteiro de casa noturna, valet de estacionamento de restaurante e até dançarino numa casa de tangos. Então, um velho amigo, desempregado como ele, o convidou para sócio no táxi que conseguiu comprar com o dinheiro da indenização.

Hoje, dez anos depois, aos 54 anos, Alberto afirma que escolheu a profissão certa. Criativo, valendo-se dos seus conhecimentos de eletrônica, ele fez do seu táxi (um dos 18 que comprou em sociedade com o amigo) um dos mais disputados e originais da cidade. O passageiro que viaja no banco traseiro se surpreende ao encontrar a sua disposição aparelho de som (que toca fitas, CDs e até mesmo o velho LP), DVD, televisor, notebook, celular e até um frigobar, com nada menos que nove tipos de bebidas alcoólicas e refrigerantes.

Além dos vidros escuros, para evitar assaltos e também oferecer maior privacidade aos clientes, Alberto instalou no carro uma divisória de plástico separando o motorista do passageiro. Por meio de uma pequena janela com uma espécie de gaveta, onde é colocado o dinheiro da corrida, ele se comunica com o passageiro, e este com ele, falando numa espécie de interfone. Muitos clientes o reconhecem logo na rua, já que seu táxi é um carro europeu, último modelo, que também chama a atenção por um detalhe: o luminoso no teto tem escrito "Supertáxi".

O senador e a atriz

Culto e conversador, conhecendo como poucos economia nacional e internacional, Alberto tem também muitas histórias saborosas e picantes para contar, envolvendo passageiros de seu táxi. Mas ninguém o convence a dar nome aos bois."Sou discreto e além do mais são meus clientes, não faria uma coisa dessas", ele afirma. Mas não se furta em contar alguns.

Os melhores casos, segundo explica, aconteceram porque os passageiros esquecem de desligar o interfone, após dar a ele o itinerário. Por isso, ele costuma ouvir muitas conversas no banco traseiro. "A mais surpreendente foi a de um senador, muito conhecido, que tomou meu táxi junto com um jovem e o político fez todo o percurso sentado no colo do rapaz. E falando coisas cabeludas para ele", revela o taxista. "Sem falar de vários políticos que fizeram negócios ilegais no banco de trás.Se eu quisesse complicar a vida deles, bastava gravar o papo e mostrar para a polícia", ele diz, apontando para um gravador conectado ao interfone.

Houve também, ele relembra, o caso de uma popular atriz de telenovelas, tão conhecida que mal pode andar pelas ruas, de tão assediada. Ela foi chorando, do bairro onde mora até o aeroporto, despedindo-se e beijando a namoradinha, uma famosa cantora, antes da viagem internacional que faria. "Que coisa, não?", ele se espanta. "Meu táxi é um Brasil em miniatura. Além de me dar um bom dinheiro no fim do mês, em que outra profissão acontecem tantas coisas e tantas surpresas?"