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Nossa
vida na noite já é difícil e às vezes
amarga, por isso gosto de contar aqui coisas alegres, curiosas
e exóticas. Mas hoje vou abrir uma exceção
por causa da morte de um velho e querido amigo, o cabeleireiro
Pente Fino (o nome verdadeiro eu não revelo, como homenagem
a ele e a família).
Meu amigo se apaixonou por um jovem advogado da alta sociedade,
figura muito conhecida, que aparece sempre nas colunas sociais
e nas grandes festas, sempre cercado de belas mulheres. Um colunista
desses que só falam de futilidades, chegou a escolher este
pulha como "O solteiro mais cobiçado da cidade".
Mas é tudo para esconder sua verdadeira natureza. O cara
é bicha enrustida, que nunca assumiu o que é.Acontece
que é também um péssimo caráter, um
safado, que fingia gostar do Pente Fino, mas tomava dinheiro dele
para comprar drogas e acabou envolvendo meu infeliz amigo num
roubo de quase 200 mil reais, do qual ele nunca participou.
O canalha foi descoberto, chegou a ser levado para o distrito,
mas mexeu os pauzinhos, a família gastou uma fortuna com
advogados e ele acabou sendo inocentado. Não fosse pelos
conselhos que o advogado da nossa turma me deu, eu ia botar aqui
o nome todo desse safado. Acontece que eu não posso provar,
mas ninguém no mundo me convence que não foi esse
sujeito o culpado.
Pente Fino foi preso, ficou uma semana nas grades e, como pobre
e bicha que era (rico é homossexual, pobre é bicha),
levou toda a culpa. Cara digno, não abriu a boca, não
dedou ninguém. Até conseguir provar sua inocência
e sair livre, foi jogado numa cela com os piores elementos que
cumprem pena, foi seviciado e espancado, até conseguir
provar que não teve nada a ver com o roubo.
Meu amigo Pente Fino morreu a semana passada, aos 37 anos, não
de Aids, como os mais preconceituosos podem pensar, mas de pneumonia.
Como eu sabia bem o tipo sensível que era, tenho certeza
que também morreu de humilhação e amor próprio
ferido.
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