Cobras e lagartos são
alimentos em Brasília

Por Alberto DeSalvo
Coordenador literário do suplemento Cultura Para Todos

Numa da ruas principais de Ceilândia, um dos bairros satélites e pobres de Brasília, um negócio cada vez mais lucrativo está nas barracas que vendem churrasquinhos, doces, biscoitos e outros alimentos. A barraquinha de José Manuel Santos, o Bem Passado, como é conhecido dos fregueses, está entre as mais concorridas. Ele vende de tudo, desde churrasquinhos tradicionais, feitos com carne de vaca, boi, caça e pesca, até os de origem desconhecida. Ele não gosta muito da definição "origem desconhecida" para as frituras e assados que oferece num cartaz pendurado numa das estacas da barraca.

Os nomes do cardápio são atraentes e evocativos da capital brasileira. "Delícia do Senado", "Coxinha de Secretária","Guisado à Congresso", "Caldeirada Política", "Deputado Acebolado" e até mesmo o "Bife de Panela Presidente", que segundo Bem Passado está entre os prediletos da freguesia. Ele explica que, entre seus fregueses, estão pessoas da sociedade de Brasília, políticos conhecidos e até um senador muito popular, cujo nome não revela.

Sapos também

Num canto escondido do cartaz com o cardápio, em letras quase apagadas, um item chama atenção: Cobras e lagartos. Perguntado sobre o que é, Bem Passado explica que é um dos pratos mais baratos e de maior saída na barriquinha. "É isso mesmo que está escrito. Não vou enganar ninguém", ele diz. "São paneladas ou churrasquinhos de cobras, lagartos, calangos e outros bichos, que a gente acha em todo lugar aqui na região. Por isso são baratos e os preferidos da turma mais pobre do bairro. É alimento como outro qualquer e até quem entende diz que são muito nutritivos".

Bem Passado conta que o deputado Gilvan Aloísio Macedo, que por sinal mora num dos bairros de Ceilândia, onde tem seu reduto eleitoral, aparece todo sábado na barraquinha para comer um prato que ele, ironicamente, apelidou "Impeachment", uma mistura de cobras, lagartos, calango e outros "temperos" que prefere manter em segredo.

"Esse deputado, velho amigo lá da minha terra, lambe até os beiços com o meu prato, que ele adora", revela o dono da barraquinha. "Como é um cara muito gozador, costuma dizer que o prato é bom de qualquer jeito, mas para quem vive engolindo sapo no Congresso, a comida fica melhor ainda".