Brasil nas mãos de
Deus e da seleção

O desempenho da economia brasileira em 2002 dependerá de um conjunto de fatores - nenhuma nova crise financeira internacional, além da Argentina; ocorrência de chuvas para evitar apagões, resultados das eleições presidenciais e dos jogos da seleção na Copa do Mundo e, por último, do acerto e da rapidez das medidas a serem tomadas pela equipe econômica - , o que coloca o País nas mãos de Deus e da seleção de futebol.

Como se costuma dizer, "de futebol nós entendemos e Deus é brasileiro". Então, se os jogadores recuperarem o prestígio da seleção e o Criador ainda não tiver se naturalizado americano, o Brasil chegará ao fim de 2002 com as coisas sob relativo controle. Caso contrário, deverá ter início mais um daqueles ciclos em que racionalidade e planejamento passarão a ser inúteis.

Em outras palavras, os brasileiros deverão em 2002 cruzar os dedos, rezar e torcer.

Esse meu rápido diagnóstico sobre as perspectivas do Brasil em 2002 me faz lembrar os anos 60, nos corredores de Cambridge, quando, fascinado pela literatura latino-americana, resolvi fazer meu doutorado em História das Américas Espanhola e Portuguesa.

Sobre essa escolha teve decisiva influência o escritor peruano Mário Vargas Lousa, para quem espanhóis e portugueses trocaram a realidade de seus países de origem pela ficção, que representava, para eles, a exuberante, em todos os sentidos, realidade do Novo Mundo.

Em outras palavras, na interpretação de Vargas Lousa, portugueses e
espanhóis teriam enlouquecido, ou na linguagem popular, "viajado na maionese", ao não mais conseguirem separar, com nitidez, os limites da realidade e da ficção. Mais sorte tiveram os ingleses, imagina o escritor peruano, com os Estados Unidos e Canadá, mais parecidos, embora mais ricos, com a Europa.

A história de Estados Unidos e Canadá, para mim, tinha pouco interesse, mera extensão, acrescida das contribuições negra e indígena, da européia e, particularmente, da inglesa, que eu já conhecia. Os trópicos me fascinavam desde criança.

Em 1966, eu trabalhava em minha tese de doutorado, intitulada "A Influência da Maçonaria na Independência da América Ibérica", quando tomei conhecimento, em Londres, de uma crônica escrita por um jornalista brasileiro sobre o verão londrino. Dizia o cronista, que escrevia sobre a Copa do Mundo de Futebol, que se desenrolava em Londres, que ele, bem como jogadores e toda a comitiva brasileira, incluída a mídia, tiveram muita sorte, "pois o verão londrino, este ano, coincidiu exatamente com o final de semana".

Tal observação e gaiatice me encantaram. Fiquei sabendo que o cronista, cujo pseudônimo era Stanislau Bola Preta, escrevia também sobre música popular brasileira, mas com seu nome verdadeiro - Sérgio Torto - , e que inventara o Festival de Bobeira que Abunda no País, batizado por ele com a sigla Febeapá, além de incontáveis personagens, como a tia Belmira e o sobrinho Baixamirando, Mirinho, o Nefasto.

Tive a sorte de conhecer Sérgio Torto, que apesar do nome escrevia certo, durante minha primeira viagem de estudos ao Brasil, em 1969, pouco tempo antes de sua morte prematura.

Vargas Lousa e Stanislau Bola Preta ajudaram-me mais a entender a alma dos latino-americanos do que todos os livros que já li sobre o assunto.

Mas, voltando a 2002, a criatividade, que é tão típica dos brasileiros, deverá aumentar muito entre os meses de junho e julho, período em que acontecerão os jogos de futebol da seleção. É que em razão do fuso horário, as partidas previstas para a Coréia e o Japão serão assistidas pelos telespectadores brasileiros por volta das 3 horas da madrugada.

Qualquer europeu, americano ou asiático deixaria para ver o videoteipe da partida no dia seguinte. No Brasil, não. Os amigos vão se reunir logo após o jantar em torno de dúzias de cervejas, bem geladas, e de batatas, amendoim, pipoca e salames, cortadinhos bem finos, até o horário dos jogos. Depois disso, lá pelas cinco da madrugada, dormirão até as 11 horas. Em seguida, almoço e uma rápida passada no escritório para comemorar a vitória da seleção.

Se o Brasil for campeão, como antecipam magos e adivinhos das mais diversas tendências, teremos um segundo semestre de crescimento acelerado do PIB, puxado obviamente pela produção de cerveja, que baterá todos os recordes.

É claro que isso ajudará a eleger o candidato oficial, seja ele quem for, à sucessão do presidente Fernão Mairinque Manhoso. O que, por sua vez, ajudará a conter a crise argentina, a inibir quaisquer e sazonais crises financeiras internacionais e a atrair, cada vez em maior quantidade, capitais estrangeiros para o País.

Bem, se nada disso acontecer, só Deus, brasileiro ou naturalizado, salvará o País do caos.


*Kenneth Goodson é economista especializado em países emergentes latino-americanos. Colaborou neste artigo o cronista esportivo Rolando Figueira