Brasil, o futuro do passado

Entender o Brasil não é fácil. Lembro-me de que, quando estava preparando a minha primeira visita ao Brasil, no começo da década de 60, pedi a um brazilianista, colega de Harvard, informações sobre a cultura do país. Ele me disse, em tom misterioso: "Acho que você vai precisar de algum tempo para entender os brasileiros". "Por quê?, perguntei-lhe, curioso. "É que lá", confidenciou-me, "os professores não ensinam, os alunos não aprendem, os juízes não julgam, as prostitutas gozam e se apaixonam pelos clientes, os gigolôs sentem ciúmes das protegidas e os traficantes de drogas logo, logo se tornam viciados". O fato é que a economia brasileira encerrou mais um ano com desempenho extraordinário, devendo registrar o fabuloso crescimento do PIB de 3% e taxa anual de inflação próxima dos 5%. Os números são resultado do racionamento de energia, dos 60 milhões de pobres e miseráveis, do apartheid social, do menor salário mínimo dentre os países emergentes, e da péssima distribuição de renda, só comparável à das nações mais pobres da África.

Esses são os motivos que fazem do brasileiro o povo mais alegre do planeta. Por exemplo, ao nascer, já "herda", de cara, uma dívida de cinco mil reais, correspondentes a cerca de dois mil dólares, relativos ao rateio individual da soma das dívidas públicas interna (R$ 625 bilhões) e externa de US$ 90 bilhões.

Para quem, como eu, conhece o país, não há mistério em tanta felicidade! Uma pista nos é dada pelo historiador César Duarte de Holambra, para quem o brasileiro "é essencialmente um ibérico, deslumbrado pelo fato de não existir pecado ao Sul do Equador".

O tema é aprofundado por Rudolph Adorno, filósofo da Escola de Alta Culinária de Salsichas e Embutidos de Frankfurt. De acordo com ele, o Brasil revive, seis séculos depois, o reino imaginário e mítico de La Cocagne.

Esse lugar, criado pela imaginação de religiosos, na Alta Idade Média, cansados de tantas proibições da Igreja, situava-se em algum lugar mágico da Europa Ocidental. Nele, todos podiam comer, beber e fornicar livremente sem qualquer tipo de repressão e - melhor ainda - sem engordar, nem sofrer de doenças venéreas.

Qualquer semelhança com o Carnaval brasileiro não é, destaca o sábio alemão, mera coincidência.

No Brasil, segundo o sociólogo Silvestrã Hernandez, um dos mestres do atual presidente da República, o também scholar e sociólogo Fernão Mairinque Hermoso, "não se pode ter certeza de nada: a lei da oferta e da procura, por exemplo, nem sempre funciona por aqui; também não se pode dizer que exista entre brasileiros a famosa luta de classes de Marx. No máximo, pode-se falar em luta de castas".

E ele as enumera: "há os barões falidos, que têm o poder político, mas não o econômico; há os carcamanos, que detêm o poder econômico e aspiram ao político; e há também - obviamente em número muitas vezes maior - os macunaímas, que formam o descomunal contingente de excluídos, que querem fazer uma revolução cultural apenas com futebol, música popular, Carnaval, tráfico de drogas e o turismo sexual".

"Os barões", observa o notável scholar paulista, "dominam a máquina estatal e, para compensar a perda do poder econômico, trataram de acumular vantagens e mordomias pessoais. Além disso, no exercício do poder, criam dificuldades para vender facilidades".

A filosofia dessa elite política pode resumir-se na seguinte frase: "Se nóis num óóóhhh neles, eles óóóhhh ni nóis". (Tal bordão é intraduzível para o inglês ou qualquer outra língua por ser acompanhado de um gesto que simula o ato sexual). Por sua vez, os carcamanos respondem dizendo: "Vamos almoçá-los antes que eles nos jantem". Não tendo como reagir, os macunaímas vingam-se de ambas as castas, com seu grito de guerra contra qualquer tentativa de organização e de racionalidade: "Deixa vir que nóis avacalha".

Nos finais de semana, todos se irmanam em torno de uma boa cerveja, que chamam de loira geladíssima, de um bom churrasco ou de um jogo de futebol. Na segunda-feira, tudo volta ao normal, ou seja, como dizia o poeta popular Argêncio Herrera: "Hora de dormir, dormir; hora de comer, comer; hora de brincar, brincar; hora de vadiar, vadiar; e hora de trabalhar, perna pro ar que ninguém é de ferro".

Gaiatices à parte, o Brasil tem futuro, sim. Pelo menos é o que garantiram o presidente Fernão Mairinque Hermoso e o ministro da Fazenda, Paulo Bonan, em recente seminário internacional, ocorrido em Nova York, do qual participaram potenciais investidores. Quando repórteres locais perguntaram a eles quanto tempo demoraria a chegar o prometido futuro risonho, responderam que isso era impossível de prever. "Talvez algumas gerações", arriscou, enigmático, Hermoso. "Afinal", acrescentou, em tom filosófico, "o futuro a Deus pertence".

Previsões para 2002: o Brasil será pentacampeão mundial de futebol, o PIB crescerá mais do que neste ano, a inflação será menor e haverá cerveja para todos.


* Kenneth Goodson é PhD em Economia pela Universidade de Harvard e especializado em países emergentes.

Colaborou neste artigo a jornalista Pollyana Farney, do diário "A Patativa do Maranhão".