Um festival para
calar os pouco exigentes

Em meio à desolação cultural em que se transformou o nosso sistema exibidor cinematográfico,vez por outra surge um raio de esperança que, se não consegue sobrepujar a mediocridade generalizada dos filmes em cartaz (a esmagadora maioria, claro, vinda de Hollywood), pelo menos nos põe em contato com outras culturas, outros mundos esquecidos mas capazes de fazer obras de altíssimo nível.

Eu me refiro ao recente 15º Festival Internacional do Filme Underground e Alternativo do Terceiro Mundo, ocorrido no Espaço Cultural Dimitri Guelvara. Que deslumbramento, que qualidade, que grandes obras de arte! Durante 30 dias, um público variado se encantou (e aplaudiu entusiasticamente) com nada menos que 147 filmes de 39 países, entre eles, Sierra Leoa, Zanzibar, Sudão, Alto Volta, Malavi,Haiti, Ilhas Comores e, claro, o nosso Brasil.

Impossível falar sobre todos no pequeno espaço desta coluna. Mas posso destacar alguns deles que, com muita certeza, nunca chegarão aos circuitos comerciais. A barreira intransponível hollywoodiana não permitiria... Uma pena, pois talvez os americanos aprendessem como se faz cinema de alto nível...

O público elegeu como seu favorito "Nyundo" ("Martelo" no idioma swahili), delicada e brilhante parábola sobre as cobras coloridas e milagrosas da África Oriental. Seu diretor,Namna Ya Mboga, de apenas 19 anos, está sem dúvida entre os maiores talentos internacionais que o cinema revelou nas últimas décadas. Em segundo lugar na preferência do jovem e entusiástico público ficou a co-produção servo-croata-sudanesa "Voda Za Usta" (Gargarejo, em croata), cuja forte carga dramática e emocional provocou lágrimas e em seguida aplausos estrondosos.

De minha parte, destaco o iemenita-haitiano, falado em espanhol, "Huevos Revueltos" (o qual, inclusive, mereceu meu voto de melhor do festival, como membro do júri de críticos). Nem todo o espaço do nosso jornal seria suficiente para elogiar esse filme fulgurante, que pode se situar, sem favor, junto das obras de grandes mestres como o servo-croata Lenj Jagnje, o grego Astakos Metalon (lembram-se de "Através das Fiandeiras"?) e do americano Fred F. Sears, o gênio de "Vingança de Gangster", "Invasão dos Discos Voadores" e outras obras-primas. Voltarei ao assunto.