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A
Argentina é hoje o maior laboratório de economia
do mundo. Lá coexistem e, melhor, circulam com igual aceitação,
o peso, o dólar e o patacon. Quem, por acaso, achar que
o dólar ou o peso são as moedas de maior aceitação
está completamente equivocado. Nas províncias argentinas
não existe crise. Na opinião da população
interiorana, o problema está restrito ao portenho, que
bebe como inglês, se alimenta como italiano e trabalha como
brasileiro.
Segundo eles, ao contrário dos portenhos, os argentinos
das províncias comem apenas o suficiente, bebem moderadamente
e trabalham como coreanos.
Rivalidades regionais à parte, enquete recente, realizada
pelo Instituto Vox Ganaderos, mostrou que 10% dos portenhos preferem
usar o dólar e 85% usam pesos, por absoluta falta de opção.
Para os 5% restantes, a moeda é indiferente: pesos ou dólares
- o que vier é lucro.
A mesma pesquisa feita nas províncias revelou que 100%
dos 950 maiores criadores de gado do país preferem o dólar,
desprezam o peso, mas só têm patacones.
Os
dados revelados pela consulta dividiram as opiniões dos
principais líderes do governo argentino. Na interpretação
do presidente Hernán De La Plaza, os números demonstram
que a população do país quer o peso como
moeda única desde que sua cotação seja o
dobro do dólar. "O argentino está determinado:
é o dobro ou nada", resumiu o presidente.
Já para o superministro da Economia, Sábato Centauro,
o momento exige maior cautela. "A dolarização
plena é a única maneira de transformar a Argentina
no centro financeiro da América Latina". Na avaliação
de Centauro, a adoção do dólar como moeda
platina teria a dupla vantagem de acabar com a recessão
e de transformar o país na porta de entrada de todo o capital
estrangeiro que vier para o subcontinente. "Em cinco anos,
a Argentina vai se transformar no Banco da Alca sem produzir um
único parafuso", argumentou o ministro.
Mas,
preocupado com os vizinhos do Mercosul, o principal conselheiro
da cúpula governamental argentina, Tristán Vespuccio,
acha ambos os planos temerários. E sugere uma terceira
via. "Por que não só o patacon?" Ele lembra
que o patacon é uma moeda virtual, portanto, de circulação
ampla e total aceitação. A explicação
é simples, sustenta Vespuccio: "como recusar uma moeda
que nem existe?". Além de zerar total e imediatamente
a dívida interna, a adoção do patacon teria,
na opinião do superconselheiro presidencial, o extraordinário
efeito de mudar radicalmente as relações da Argentina
vis-à-vis a economia do mundo globalizado. "No páreo
da informatização financeira mundial a Argentina
sai na frente", afirmou. Com isso Vespuccio quer dizer que
seu país estaria queimando várias etapas ao mesmo
tempo, pulando da economia financeira e pós-industrial
diretamente para a virtual.
As
três propostas parecem contraditórias. Mas, na verdade,
são uma só em suas essências. Ora, o peso
já não existe. Segundo os últimos cálculos
feitos pelo Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Kibitser,
o peso vale hoje exatamente 0,000000001% do dólar.
O
dólar, por sua vez, existe. Mas com um detalhe que talvez
inviabilize o plano de Centauro: ele está todo fora da
Argentina. Os poucos dólares que ficaram no país
têm a mesma cotação do peso devido à
paridade entre as duas moedas.
Do patacon, não há nada a dizer. Como moeda virtual
ele simplesmente não existe por definição.
Ou seja, não só as três moedas que circulam
no país não existem como a própria Argentina
é hoje um país virtual. Estamos, portanto, diante
de um falso dilema: não é que seja difícil
administrar a economia argentina - é absolutamente inútil.
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Colaborou neste artigo o repórter de economia Guillermo
Nudnic, do jornal El Clarón, de Mendoza. O autor, Keneth
Goodson, já é suficientemente conhecido. |