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Cabul,que
lugar horrível
para uma lua-de-mel
Por
O.W.B.J. Ferrão*
Nossa
primeira escolha era passar a lua-de-mel na Inglaterra, juntando
prazer e negócios, já que tenho lá muitos
amigos e interesses comerciais. Além disso, eu pretendia
visitar na Escócia um ex-sócio meu, Lorde Carsphairn,
em cujo castelo, entre outros, existe um tesouro sem preço:
uísques de 200 anos.
Acontece que minha mulher, Samira, tinha outra idéia. Queria
visitar uma velha e querida amiga, Tatta Ibra, um dançarina
e figurinista que conheceu em Honolulu anos atrás, e que
agora mora em Mardan, no Paquistão. Então, como
presente de casamento a ela, decidi mudar meu itinerário.
Mal podia imaginar o terror que nos esperava.
Voamos até Calcutá, na Índia, e de lá,
numa assustadora jornada que levou semanas, viajando até
em lombo de burro, chegamos finalmente ao lugarejo onde mora Tatta.
Era horrível, cheio de miseráveis, animais nas ruas,
sem nada para fazer ou visitar. Não fosse pelo toca-CD
que a Samira teve a feliz idéia de levar, teríamos
morrido de tédio.
Então, me passou pela cabeça conhecer o misterioso
Afeganistão, que sempre me fascinou por algum motivo que
não sei explicar até hoje. E lá fomos nós
até Peshawar, que logo descartamos como turismo, porque
não tem nada bonito a oferecer. Como é que essa
gente quer atrair o turista estrangeiro se a cidade é só
gente miserável pelas ruas. Não há sequer
um bar ou uma casa noturna para ajudar a passar o tempo. Um conselho
de amigo: nem pensem em visitar Peshawar.
Enfim,
a capital
Depois
de muitos contratempos, gente esquisita, uma burocracia ainda
pior que no Brasil, policiais grosseiros, chegamos então
a Cabul, a tão falada capital do Afeganistão. Gente,
se eu contar para vocês que é um terror, vão
dizer que eu exagero. No hotel mambembe em que ficamos, tido como
o melhor da cidade(imagine o resto), a comida era intragável.
Tentamos mas não deu pra comer o pão seco deles
e uma espécie de suflê de leite gordo, que eles chamam
de kaimoc. Não fosse pelas batatinhas chips que levamos
e morreríamos de fome. E nada, mas nada mesmo para beber.
Acho que álcool é proibido por lá. Nunca
me arrependi tanto de não ter levado umas garrafas de uísque
na mala.
Era setembro, o tempo tão complicado como a cidade, frio
e calor, frio e calor. Uma droga mesmo. Muitas poeiras, carros
militares para lá e para cá, todo mundo armado,
até as crianças, com medo não sabem de que.
Fizemos um breve passeio pelas ruas. Nossas roupas ocidentais
e bastante coloridas (veja a foto que um mascate tirou da gente)
despertaram tanta atenção que decidimos voltar logo
para o hotel.
Samira quis sair sozinha e visitar um mercadinho próximo,
para ver se achava uns artigos nativos para trazer de presente
para o Brasil. Mas não deixei. Imagine, sair por aquelas
ruas esquisitas. E o tempo todo que ficamos em Cabul, ou seja,
um dia e meio, não paramos de ouvir explosões distantes.
Muito estranho. Perguntamos ao Gamal, o velho da portaria do hotel,
e ele contou em inglês muito torto que eram explosões
numa pedreira que ficava a 20 quilômetros do centro da cidade.
Um barulho muito chato mesmo, que não deixou a gente dormir.
Comemorando
o que?
Mas
o pior ainda estava por vir. Imaginem que não há
televisão no Afeganistão! Isso mesmo, acredite quem
quiser, nenhum tipo de televisão. Acho que a religião
deles não permite. Que povo estranho, não ? Então,
para passar o tempo, Samira se lembrou do toca-cd dela e botamos
umas músicas do Elvis Presley e do Pat Boone, que eu adoro.
Só como curiosidade, eu conheci Pat Boone pessoalmente
quando estive em Las Vegas com a minha primeira mulher. Grande
sujeito, ótimo cantor. Mas aí aumentamos bastante
o volume e eu e Samira começamos a dançar. De repente,entraram
pelo quarto três sujeitos com cara de assassinos, armados
de fuzil, que gritavam umas coisas que a gente não entedia
e me deram um empurrão e ameaçaram agredir minha
mulher. Um deles pegou o toca-cd e os discos todos e levou embora.
Fiquei indignado, mas o que fazer com gente assim? Só dias
depois é que nos contaram que música também
é proibida lá. Qualquer música que não
seja a deles, uma chatice daquelas.
Isso foi a gota que faltava. Decidimos ir embora na manhã
seguinte, fugindo desse lugar infernal, 27 dias depois que iniciamos
nossa lua de mel. Foi quase um mês de verdadeiro inferno.
Quando saímos num velho caminhão de Cabul, no dia
12 de setembro, uma multidão estava nas ruas, gritando,
atirando para o alto e pelo jeito comemorando. Eu perguntei pra
Samira, estão comemorando o que, neste fim de mundo, um
lugar miserável em todos os sentidos? Por isso, nunca é
demais alertar nossos leitores: evitem a todo o custo fazer turismo
em Cabul. E em todo o Afeganistão também.
*
O.W.B.J. Ferrão, fundador e diretor do SacolãoBrasil,
viajou com sua mulher Samira para os EUA, Europa,Índia
e Paquistão a convite de diversas empresas aéreas,
às quais agradece. |