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Ensaio/Crítica
Pouco
afeito a citações, por iluminadoras que sejam, abro
aqui exceção, pela primeira vez em muitos anos de
crítica literária, para buscar ajuda na mente de
um sábio britânico do século 17, Edward Fortegue
Young. "Fique sábio depressa", ele afirmou. "Um
tolo aos 50 é tolo à beça". Fui beber
na fonte deste filósofo da Velha Albion para melhor analisar
o último livro de ensaios filosóficos deste iluminado
e subestimado Martinico Vasconcellos Sobral DeForge, sem favor,
o maior pensador brasileiro da atualidade. Intelectual de dimensão
imensurável, filósofo de horizontes ilimitados,
contista, poeta, ensaísta, romancista, multimídia,
livreiro, bibliotecário, ele é também compositor
de obras clássicas, como a ópera-processo-estruturalista
Cavolo Rabbioso. Enfim, como me situar diante de intelectual
de tal estatura, de tamanha diversidade? Estaria eu capacitado
a abordar, e, mais grave ainda, analisar obra de imensa dimensão?
Eis
porque fui procurar ajuda nos clássicos, nas citações,
nos gênios da antiguidade. A citação acima
é minha tentativa de assumir idade menor e procurar chegar
à juventude de DeForge, que tem apenas 23 anos A filosofia,
como a psicanálise, tenta encontrar nos meandros da mente,
nos escaninhos profundos da cultura, respostas a indagações
que o mortal comum, ou mesmo o intelectual, não atinge
em suas limitações cerebrais e espirituais. Talvez
esteja aí a motivação central da frase clássica
do filósofo Alban Abuminian Capergianian, monge romeno
do século 14, que cortou parte do indicador da mão
direita para mostrar que dedo em riste é, não apenas
agressivo,prepotente e ditatorial, como símbolo da falta
de humildade. "Não aponte, não indique, não
pontifique", afirmou Capergianian. "Baixe o dedo, desarme
espírito e mente e encontrarás o caminho para a
sabedoria".
Toda
essa digressão filosófica tem muito a ver com a
obra que serve de comentário neste ensaio. Intitulado "Crocifisso
Colpevole" (Seccato Editore, 2001, 2.348 págs),
o livro,escrito em italiano, ainda sem tradução
em português, é fruto dos anos em que DeForge passou
em Ulan Bator, como estivador, após debacle na vida sentimental
(seu divórcio da cantora lírica Mirabella Crocchetta,
grande paixão de sua existência, o mergulhou num
inferno de dúvidas e culpa). Como diria o minimalista Bernardo
Pu Yi, "Ponha o dedo na ferida de outrem, a dor será
igualmente sua". Também isso serve para definir a
obra de DeForge. Pois, esmiúce todas as linhas, penetre
nas entrelinhas, revolva as profundezas do pensamento abismal
e intensamente analítico e anacorético do autor;
faça do seu jeito, aborde pelo método filosófico
e kirkergaardiano do eu transcendentalista lacaniano-socrático
-, ainda assim o leitor comum não conseguirá penetrar
em todo o esplendor, nas nuanças sociais e religiosas desta
obra de exceção. Mas, infelizmente, há um
sutil mas decisivo obstáculo a macular a integridade da
obra de DeForge. É que... (continua)
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