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Em
recente palestra, realizada em Nova York, para diretores do Fundo
Minoritário Internacional (FMI), Banco Mundial de Ajuda
aos Acionistas (Rich Help Bank, como é conhecido em inglês)
e representantes de outras instituições financeiras
privadas americanas credoras da Argentina, o superministro da
Economia daquele país latino-americano, Sábato Centauro,
deixou a platéia perplexa ao contestar a resistência
dos credores em conceder o 158º empréstimo a seu país,
estimado em mais de US$ 300 milhões.
O que causou espanto generalizado foi a revelação
feita por Centauro de que a Argentina é a única
nação do mundo a ostentar a invejável taxa
de dois bovinos por habitante. Efetivamente, a Argentina tem um
rebanho bovino calculado em mais de 60 milhões de cabeças
de gado para uma população de apenas 32 milhões
de pessoas.
"Se
possuímos 60 milhões de cabeças de gado",
exemplificou o superministro, "isso equivale a dizer que
não temos mais um centavo de dólar de dívida
externa". E, antes que o clima de surpresa encerrasse prematuramente
a reunião de cúpula, Centauro fez rapidamente algumas
contas. "Vejamos", disse, assumindo ar de rapazote que
acaba de se laurear em ciências contábeis, "um
boi gordo pesa cerca de 18 arrobas. A arroba do boi gordo está
cotada no mercado internacional a US$ 18. Multiplicando-se US$
18 por 18 arrobas, temos que o preço de cada cabeça
de boi é de US$ 324.
Multiplicando-se ainda esse valor por 60 milhões de cabeças
de gado, chegaremos facilmente à conclusão de que
o rebanho argentino representa um ativo de mais de US$ 1 trilhão
e 944 bilhões".
Centauro
fez uma pausa para sentir a reação de banqueiros
e tecnocratas. E, sem mais milongas, prosseguiu: "Todos vocês
devem apreciar um filé de carne bovina e, por tal motivo,
estão convidados para saborear um legítimo baby
beef platino, acompanhado de batatas fritas, no almoço
que lhes será servido em seguida".
Enquanto os garçons, todos trajados com impecáveis
uniformes brancos, se esmeravam em servir a sobremesa, sorvetes
de creme com framboesas quentes, Centauro retomou a palavra para
fazer o agradecimento final aos convidados. "Quando nasce
um americano", argumentou Centauro, agora já com a
platéia totalmente hipnotizada e sob seu controle, "ele
tem à sua disposição US$ 900 para consumo
imediato; o brasileiro nasce herdando uma dívida de US$
900; o chinês de Taiwan e o natural de Cingapura, quando
vêm ao mundo, têm dois microchips para exportar. Mas,
nós, argentinos, já nascemos com dois bois gordos
de crédito". "Senhores",
concluiu o superministro, "a dívida externa argentina,
de acordo com os analistas de agências especializadas em
avaliar os riscos de investimentos em países emergentes,
está calculada em US$ 120 bilhões.
Como, nas sábias palavras do saudoso Maynard Keynes, não
há almoço grátis, os senhores acabaram de
quitar a dívida externa do meu país. E ainda devem
à Argentina o valor em dólares do excelente vinho
de Mendoza, que acabaram de degustar".
*
Kenneth Goodson, economista, jornalista e argentinista, é
autor do livro "The Last Tango of Centauro" (El
Derradero Tango de Centauro), correspondente do jornal inglês
The Wasteful Post, em Buenos Aires, e cobriu a guerra das
Falklands (Malvinas) para a revista quinzenal americana Good
Old War News. |