Os perigos do apagão

Nos bons tempos, antes dessa história da crise da eletricidade, eu esbanjava energia, em todos os sentidos. Eu só fazia amor com todas as luzes acesas, inclusive aquela com nome esquisito, estroboscópica. Ligava ventilador, telão com vídeos de sacanagem, ar frio no verão, ar quente no inverno, som romântico, tudo que os clientes especiais podiam pagar. Aí veio esse negócio de apagão. Como todos os brasileiros, eu também quis cooperar com o governo. E desliguei tudo e deixei só uma luzinha colorida no meu "boudoir". Gostaram da palavra? Foi um diplomata francês que me ensinou.

Cá entre nós, meia-luz é legal, fica tudo mais romântico, ainda mais para aqueles que são tímidos. Então, um dia ligou um chinês, japonês, coreano, sei lá o que ele era. Combinamos tudo por telefone, ele apareceu, parecia cara legal, pagou logo de cara e eu fui trocar de roupa e quando voltei ele já estava lá na cama. Fizemos o que era pra fazer. Aí, ele fez uma coisa esquisita, deu um grito, se jogou no chão, rolou debaixo da cama e saiu do outro lado. Pulou pra cima de mim outra vez. Uns minutos depois, deu outro grito, caiu no chão, embaixo da cama, apareceu do outro lado, pulou mais uma vez em cima de mim. Lá pela quinta vez, eu já não agüentava mais. Fiquei perguntando como é que um china pequeno daquele tinha tanta energia. Então, me deu um estalo. Acendi a luz toda, olhei a cara dele, estava espantado. Olhei embaixo da cama e, adivinhem o que estava lá. Cinco outros chinas escondidos. Que malandros, não? Me faturaram os cinco pelo preço de um só! Peguei uma barra de ferro que escondo no colchão e botei todos pra correr, pelados do jeito que estavam. Foi o meu prejuízo pela tal crise de energia. Mas continuo colaborando com o governo. Só que, agora, quando volto do banheiro, com o cliente me esperando no leito, a primeira coisa que eu faço é olhar embaixo da cama.