|
Presidente
da Moviebrás
é demitido
Por Delmar Navarro
Alencar
Carlos Ugarte, que assumira há nove meses o cargo de presidente
da Moviebrás e tinha planos ambiciosos para o cinema nacional,
foi demitido anteontem por meio de comunicado assinado pelo assessor
do ministro. "Nunca vi nada igual", queixou-se Ugarte.
"Só pode ser algum engano. Aguardo mais detalhes".
Até ontem, contudo, ele não havia recebido maiores
detalhes sobre sua demissão, que, ele credita, caso seja
oficialmente confirmada, a "forças poderosas e invencíveis,
quase todas situadas acima do Rio Grande", como explicou.
Indagado por um repórter sobre o significado da afirmação,
Ugarte disse sorrindo: "Ora, você sabe muito bem, aquelas
forças que ficam entre o Canadá e o México.
Muitos planos
Advogado,
engenheiro-agrônomo e cineasta, Alencar Carlos Greenstreet
Ugarte tinha planos ambiciosos para a Moviebrás, empresa
mista com capital do governo federal, da iniciativa privada e
grupos internacionais, notadamente dos Estados Unidos. Mal assumiu
o cargo, divulgou seus planos, que incluíam fazer de sua
empresa e do cinema nacional uma força mundial. Entre eles,
estavam co-produções com o Irã, Afeganistão
e Burkina Faso no cenário mundial. Em termos brasileiros,
ele prometia, entre outras, adaptações para a tela
das obras de Souzândrade, das pinturas de Victor Meireles,
um musical inspirado em "As Minas de Prata", de José
de Alencar, e também o que considerava seu projeto mais
ambicioso: uma superprodução tendo como tema o movimento
dos sem-terra."Mas em preto e branco, por uma questão
de coerência social", como afirmou.
Repercussão
A
demissão de Ugarte foi considerada sumária e absurda
por vários intelectuais e um rude golpe no cinema nacional.
O cineasta Pedro Paulo Fingafini disse que o fato é "mais
um exemplo da truculência e ignorância dos homens
que cuidam da cultura do país". O escritor Robson
Amoreira Flix, cujo romance "As Águas Eternas do Destino"
estava entre os projetos cinematográficos de Ugarte, mostrava-se
indignado com a demissão. "Típico de coisa
do Terceiro Mundo", afirmou. "Um intelectual do nível
do presidente da Moviebrás não podia mesmo durar
neste governo". Para o crítico Pablo Ruiz Lima, "a
exoneração do grande Ugarte tem o dedo sujo e inconfundível
de Hollywood. E por trás dos bastidores, como é
feitio deles". Outro crítico, Jean-François
Silva, disse estar "profundamente ofendido em minha brasilidade
e nacionalismo" E garante: "Cá entre nós,
desde o momento em que Ugarte assumiu o cargo, eu tinha a certeza
de que não duraria muito. Ele era carta marcada pelos poderosos
interesses internacionais. Afinal, se seus planos fossem postos
em prática, o cinema americano e seus ofensivos lucros
em nosso Brasil estariam ameaçados. Ele foi, claro, mais
uma vítima do capitalismo selvagem, aquele que chamo de
os ditadores do celulóide, ou seja, Hollywood. Pobre cinema
brasileiro".
|