Loura autêntica funda grupo
para combater preconceito

Por Cybele Van Doren

Cansada de ser alvo de preconceitos, piadas e até humilhações, a bailarina e promoter Mercedes Luna LaMarr, que se orgulha de ser uma "loura autêntica", decidiu fundar uma associação para combater a idéia cada vez mais disseminada em todo o mundo de que toda loura é burra. E fundou no mês passado o grupo "Cabelos Longos,Idéias Longas", cujo principal objetivo é reunir o maior número de mulheres, "mesmo as falsas louras", ela garante, numa campanha nacional e até internacional para acabar de vez com o preconceito do "longos cabelos, idéias curtas" em relação às louras.

Abaixando a cabeça e mostrando à repórter a raiz de seus belos cabelos, para provar que são realmente louros, Mercedes pergunta com veemência: "Está vendo? Olhe bem. Tem algum sinal de tintura aí? Tem algum sinal?" E só se acalma depois que a repórter confirma que realmente ela é loura autêntica, de nascença. Clotilde Evangelina Maliostto, seu verdadeiro nome, diz que adotou o pseudônimo artístico 20 anos atrás, quando chegou à cidade, vinda do interior do Amazonas.

"Eu era uma garota ingênua e inexperiente, em busca de uma vida melhor na cidade grande", ela conta. "Eu tinha 21 anos, e assim que cheguei na rodoviária fui abordada por um homem de boa aparência que me perguntou se não queria trabalhar para ele. Nem me passou pela cabeça que podia ser um vigarista, como de fato era. Só fui perceber isso 12 anos depois de aceitar o convite para trabalhar como recepcionista no clube que ele era dono. De clube, não tinha nada. Mas eu ficava feliz com os clientes que iam logo elogiando meus cabelos louros", lembra Mercedes.

Fim das humilhações

Ela diz que uma coisa a deixava aborrecida nos seus tempos de recepcionista. "Eles elogiavam meus cabelos, e meu corpo também, claro, mas muitos perguntavam se eu era mesmo loura ou oxigenada. Isso me deixava furiosa. Sem falar nas minhas colegas, muitas delas falsas louras, que viviam sendo gozadas pelos clientes Onde já se viu, julgar as pessoas pela cor dos cabelos". Mercedes afirma que, depois de tantas gozações e humilhações, decidiu acabar com tudo isso. Primeiro, deixou o emprego de recepcionista no clube, cujo dono, por sinal, casou-se com ela dois anos depois. A união durou pouco mais de um ano. Ela conta com humor que o marido a trocou por uma morena, "por sinal, falsa morena", ela recorda. "Eu sei disso porque ela era toda cheia de sardas, típica de estrangeira gringa. Que gente burra essa. Bem feito para ele, que trocou uma loura verdadeira por uma de cabelo pintado".

A associação que Mercedes fundou há nove meses já conta, segundo afirma, com 245 associadas em todo o Brasil, a maior parte lutando contra preconceitos e até humilhações. Muitas vezes tingindo o cabelo a cada mês para fugir do assédio e dos insultos. "Chega de homens e até mulheres nos perguntar se nosso cabelo é natural", ela se queixa. "E daí? O que importa é o que está dentro, não fora da nossa cabeça",Mercedes reage. Até o fim do ano ela espera contar com 380 associadas. Louras, oxigenadas, morenas, aceitamos todas. Chega de humilhações! Vamos partir para a luta!"