Na noite, cada caso é um caso

Vocês, queridos leitores e leitoras, nem imaginam quem são nossos clientes na rua! Não digo aqueles que aparecem de vez em quando. Falo daqueles fixos, fiéis, que nós, das calçadas da vida, chamamos de "cobertor", gíria para quem nos dá cobertura, dinheiro e calor, humano ou outro. Claro que não vou revelar quem são, pois além de ser fiel a meus clientes, não sou louca de perder gente tão legal, que me dá carinho, amizade e, claro, sustento. Mas basta dizer que entre eles tem uma meia dúzia de atores (e atrizes...) muito conhecidos, do cinema, da televisão e do teatro. Tem também muito advogado, políticos de todos os tipos, policiais(delegados, claro, pois os outros não podem me pagar) e até dois embaixadores bastante conhecidos. Um deles, lindo, ainda jovem e casado, é louco por mim e uma vez me levou num passeio de barco que foi inesquecível em todos os sentidos. Nós dois e os convidados quase botamos fogo em tudo, de tanto calor humano, para não dizer outra coisa.

Outra lembrança inesquecível que eu tive foi, imaginem com quem: um dançarino famoso, desses de Teatro Municipal, não de gafieira, que era gay mas também tinha umas recaídas com mulher. Quando isso acontecia, vinha correndo me procurar. Era uma fera, eu confesso. Basta dizer que foi ele que, numa noite de bebedeira, me ensinou alguns "passos" de balé (não foi bem isso, mas não posso contar aqui) que até hoje deixa muita gente espantada. Teve também um tipo muito estranho, que eu chamava de "Professor". Apareceu durante uma semana e acabou desaparecendo para nunca mais voltar. Até hoje não entendi qual era a dele. Me pagava, me levava para a casa dele, cheia de livros, e ficava me ensinando português, geografia, matemática, como se fosse uma sala de aula. Mas tinha uma coisa. Fazia questão de uma coisa só, nada mais, que eu ele e ficássemos totalmente nus. Pois é, a noite é assim, cheia de gente boa, gente má e muita coisa esquisita.