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Essa
história foi uma das mais estranhas que aconteceram comigo.
Coisa mesmo de quem vive na noite como eu. Foi num daqueles sábados
movimentados, as ruas cheias, principalmente de "ciscadores",
que na nossa gíria são aqueles caras sem dinheiro,
que vêm de conversa mole tentar um programinha de graça,
sem pagar nada. Quando a gente não tem nada em vista, dá
para puxar papo com eles, só de passatempo. Mas assim que
aparece um cliente certo, e a gente conhece logo pelo jeitão,
mandamos o ciscador passear e fechamos negócio com o cara
com dinheiro.
Pois nesse sábado que eu falei que aconteceu isso. O ciscador
até que tinha papo bom, era um garotão bonito e
quase que eu caí na conversa dele. Aí olhei para
o lado e vi um senhor de seus 50 anos, atraente e muito elegante,
de chapéu e bengala. Imagina, chapéu e bengala!
Ele não tirava o olho de mim e vi que queria alguma coisa.
Mandei logo o garotão embora, mas o senhor ficou lá
parado, sem se aproximar. Parecia que era tímido, então
fiz sinal com o dedo para vir conversar comigo. Tomou coragem
e veio. De perto era mais bonito e refinado ainda. Estendeu a
mão, eu dei a minha pra cumprimentar, ele beijou e foi
aí que me deu vontade de mandar o cara passear. Conheço
bem essas figuras esquisitas. Ou é maluco ou malandro.
Nesse negócio de beijar mão a gente não entra
não. Me entregou um cartão de visita e vi que não
era papel não, era de couro, coisa bonita e cara. Estava
escrito lá Conde Affonso Dalemar Sotheby , vice-presidente
da Oficina Real de Sua Majestade, e um endereço embaixo
num bairro onde só dá milionário brasileiro
e estrangeiro.
Fiquei meio surpresa e em dúvida, mas o homem me convidou
para tomar champanhe com ele num dos clubes mais caros da cidade
e estendeu o braço pra mim. Impressionada, acabei dando
meu braço pra ele e lá fomos nós. Quando
o porteiro do clube viu o homem, logo abriu a porta, fez um sinal
de respeito com a cabeça e foi assim que eu conheci o lugar,
coisa de rico mesmo. Ainda era cedo, a casa estava meio vazia
e logo arranjaram uma mesa para nós e ele pediu um champanhe
estrangeiro. Depois vi o preço e quase desmaiei de tão
absurdo. Só mesmo um conde para pagar um negócio
daquele pra mim. Ele tinha papo bom, começou a fazer elogio
pra mim, rimos muito e no fim tínhamos entornado três
garrafas de champanhe. Apesar de meio tonta, estava imaginando
quanto o programa ia render, pelo jeito coisa alta mesmo. Foi
então que vi que todo mundo que passava pela nossa mesa
dava risada. Olhavam para a nossa mesa e davam risada. Comecei
a ficar meio com a pulga atrás da orelha. Será que
eu dava tanta bandeira assim?
Aí chegou um senhor que disse que era o gerente e falou
para o conde, "Majestade, já se divertiu? Por favor,
queira se retirar então". O homem nem titubeou, se
levantou, pegou a chapéu e a bengala e foi saindo, eu levantei
também e aí o gerente disse que eu não ia
embora, tinha que ficar e pagar a conta. "Tá louco?",
eu falei zangada. "Que conta coisa nenhuma. O conde é
que me convidou" O homem riu e explicou que o tal conde era
um pobre diabo ruim da cabeça que tinha mania de rico e
nobre e fazia isso com toda mulher que caía na conversa
dele. Começou a discussão, juntou gente, o gerente
ameaçou chamar a polícia e me prender. Pra não
ir em cana, acabei pagando a despesa do miserável do conde
com cartão de crédito. Foi uma nota, mais de 250
paus. Até agora, não sei se o cara era maluco mesmo
ou trabalhava com a casa para fazer trouxas como eu gastar dinheiro.
Mas a lição valeu e me faz lembrar com dor no bolso
até hoje o que eu já sabia : cuidado com cara que
beija a mão da gente. É maluco ou malandro.
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