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Revolvendo
quinquilharias em um baú que há décadas eu
não ousava abrir (sabem como é, lembranças
nem sempre são bem-vindas), encontrei uma preciosidade,
ou melhor, duas: um disco de boleros divinais de um ídolo
meu, Fernando Albuerne, e outro de canções italianas
com o inigualável Alberto Rabagliatti. Tudo é de
superior qualidade, tanto na forma quanto no conteúdo.
Os discos são, naturalmente, aqueles de 78 rotações,
rígidos, duráveis, inquebráveis, como não
se fabricam mais nos dias de hoje, e não estas frágeis
e dobráveis bobagens conhecidas como LPs. Deus meu, quantas
atrocidades são cometidas em nome do progresso!
O conteúdo do primeiro, então, é sublime.
São obras-primas imorredouras do cancioneiro asteca, como
"Una Mujer", "Sabra Dios", "Quiereme
Mucho", "Besame Mucho" (lembranças, lembranças,
vão embora, deixem em paz esta tola e velha sonhadora romântica!).
Quanto
ao disco de Rabagliatti, não é necessário
enumerar as pérolas de alto quilate que os mais velhos
já conhecem, mas só os mais velhos. Pobre geração
de hoje, assaltada por essas barulheiras infernais que vêm
de fora e destroem o gosto e a audição de nossos
jovens! Aproveito o ensejo para relembrar uma indiscrição
(e um flerte!) que o belo intérprete italiano teve com
uma amiga minha, por ocasião de sua visita ao nosso país
na década de 50. A amiga, cujo nome, claro, vou manter
em sigilo, foi até o camarim dele (acompanhada dos pais,
naturalmente, que também o admiravam) e, lá chegando,
recebeu um inesperado e forte beijo e abraço do cantor.
Ela ficou estupefata e corada de pudor, pois nunca o vira pessoalmente.
Logo depois, o inusitado episódio foi esclarecido. Rabagliatti
a confundira com outra brasileira, sua amiga! Cavalheirescamente
pediu desculpa a ela e aos pais, um tanto quanto ofendidos e com
razão a ponto de defender a inocência da filha. E
deu à minha amiga um de seus discos, com dedicatória
e tudo, por sinal, bastante ousada, não só para
a época, como até mesmo para os dias de hoje. Felizmente
para todos, o pai dela não leu a dedicatória.
Outro
dia ainda, eu e minha amiga em questão relembramos o episódio
e, pasmem!, ao reler a dedicatória, até eu fiquei
corada!
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