Clube dos que "quase
se foram" homenageia
colega americano

Por Damião Sabaa Nafas

Uma associação intitulada "A Meio Caminho do Inferno", que reúne homens e mulheres que escaparam por pouco de morrer, fez ontem uma sessão especial para homenagear o americano Aldo Zampa, falecido a semana passada aos 95 anos na Califórnia. Zampa, membro do "Halfway to Hell Club", dos EUA, instituição que serviu de modelo e tem o mesmo nome do similar brasileiro, sobreviveu a uma queda da ponte Golden Gate, em San Francisco, em outubro de 1936, quando trabalhava num dos pilares mais altos. Foi salvo por uma rede de segurança, mas quebrou várias costelas e ficou quase dois meses no hospital. E viveu mais 64 anos.

Triagem

Jonas Quasilá, de 72 anos, presidente e fundador da entidade brasileira, que conta com 135 sócios e analisa no momento a adesão e o retrospecto de 80 novos candidatos, disse que a homenagem a Al Zampa foi uma das mais tocantes realizadas pelo clube, fundado há oito anos, mas cujas atividades são pouco divulgadas. Somente membros veteranos podem indicar novos sócios, que precisam passar por rigoroso esquema de triagem.

Quasilá decidiu fundar a entidade, junto com o amigo Roberval Isgonne, já falecido, ao tomar conhecimento do clube americano, em 58, e criar um similar brasileiro, aceitando sócios que "quase se foram", escapando de todos os tipos de perigos, ameaças e desastres.

O presidente, por exemplo, se define como "diplomado em ameaças". Ele diz: "Sobrevivi num tiroteio numa favela, um descarrilamento de trem, uma visita a Zimbábue, duas intoxicações num restaurante de frutos do mar na periferia, uma lata de sardinha com validade vencida e um churrasquinho de calçada no Carnaval de 72".

Novos sócios

Quasilá brinca com tanta sorte e ameaças: "Mereço ou não ser o presidente do A Meio Caminho do Inferno"? E relembra o falecido amigo e co-fundador Isgonne, que, segundo conta, aos 88 anos, escapou de muito mais ameaças que ele (motoqueiros, trombadinhas, uma buchada, dobradinha enlatada, travestis da madrugada) mas não resistiu, no ano passado, a um cachorro-quente com maionese estragada na saída de um cinema de arte que exibia um festival de filmes do Terceiro Mundo.

Quanto aos novos sócios, ele diz que o "histórico" da maioria já os credencia para o clube imediatamente. "Basta viver e sobreviver numa cidade como a nossa", explica Quasilá. "Mas um dos candidatos, já aprovado, ganhou de todos. Quase foi para o inferno durante um forró pesado na periferia. Nem te conto o que aconteceu com ele. Bebeu demais e lá pelas tantas, de brincadeira, gritou no salão:" É a polícia! Mulheres num canto e homens no outro!"