Problemas na delegacia

Numa noite de sábado, num verão quente como nunca eu tinha visto, a polícia deu uma batida no ponto onde eu e minhas amigas trabalhávamos e botaram as oito garotas e cinco travestis no camburão e levaram a gente pro distrito.

Os tiras eram desconhecidos, a gente nunca tinha visto aquela turma antes, e eu fiquei com um medo danado. Uma vez duas garotas da rua, amigas minhas, foram presas e em vez de irem pro distrito, tiveram que dar uma volta com os policiais e sofreram todo tipo de ataque sexual e violência. Por isso que eu fiquei morrendo de medo. Mas apesar do camburão ir pro distrito por um caminho diferente e muito mais longe, tudo não passou só de medo.

Mas quando chegamos no distrito, eu reconheci logo o delegado de plantão, um sujeito antipático e violento, que segundo minhas colegas gostava de deixar prostitutas e travestis mofando nas celas, às vezes até por vários dias. Ele não me conhecia, mas eu conhecia ele por causa da cicatriz grande que tinha no canto da boca.

Ele ficou olhando pra mim de alto abaixo, com cara de sacana e eu vi logo o que me esperava. Mandou os guardas levarem o resto da turma pra outra sala e disse pra eu chegar mais perto. Então aconteceu uma coisa que eu nunca esperava. Alguém gritou meu nome alto, "Tânya, Tânya, o que está fazendo aqui?" Olhei pro lado e vi uma bonita e elegante senhora, dos seus 40 anos por aí, muito bem vestida, mostrando que era fina e cheia do dinheiro.

Como não sou boba nem nada, vi que era a minha chance de escapar do delegado e da prisão e sapequei uma mentira: "Desculpe, dona Clara, mas eu estava indo buscar um remédio na farmácia, a polícia me agarrou junto com uma turma e me trouxe até aqui" Com cara feia, ela disse pro delegado: "Isto é um absurdo, a Tânya é minha empregada há vários anos e é claro que houve um engano. Exijo que a solte imediatamente. Se não fizer isso, ligo para o meu marido e as coisas vão se complicar para todo mundo aqui no distrito".

Não deu outra. Fui solta na hora e saí com a senhora, que tinha ido ao distrito dar parte de um roubo em sua casa, e aí no belo carro dela, com motorista e tudo, nós duas caímos na gargalhada. Apesar do jeitão de mulher fina, a tal dona Clara, que não é Clara coisa nenhuma, mas chama Dirce Maria, era minha colega de rua, anos atrás, conheceu um milionário, que pediu para ela morar com ele e morreu dois anos depois, deixando uma nota preta para minha amiga.

Foi assim que enganamos o delegado, que ficou com medo da Dirce ligar por marido dela. A última vez que eu soube dela não tinha marido nenhum. Mas, esperta como é, pode ser até que se casou mesmo com alguém importante, de meter medo em qualquer delegado.