Aposentado ganha a vida
usando as filas do INSS

Sidenor Lima, um homem alto, forte, cheio de saúde, mas "duro como todo aposentado", segundo afirma, descobriu um jeito de ganhar dinheiro extra para equilibrar o orçamento doméstico: vender lugar nas filas do INSS. Aos 68 anos, ex-mecânico, viúvo, com cinco filhos, recebendo de aposentadoria 270 reais mensais, Sidenor (o nome é falso, a pedido dele, com medo de represálias) consegue às vezes até 300 reais extras por mês, vendendo vagas nas filas de cadastramento e recadastramento. "Não dá pra tirar mais do que isso, pois quase todo mundo que aparece por lá é mais necessitado que eu", ele diz."Muitas vezes, eu não cobro a vaga e ainda dou uns trocados para um pobre coitado que mal consegue andar, de doença ou de fome".

Jeito de sofredor

Ele conta com a ajuda de três dos cinco filhos, Luís, José e Alfredo, de 22, 21 e 20 anos, que costumam acordar às três da manhã para sair do distante bairro onde moram, o Jardim Flor do Bosque, zona oeste, para pegar os melhores lugares nas filas de cadastramento ou recadastramento. Enquanto os filhos entram em locais estratégicos na fila, Sidenor fica na entrada do posto olhando quem entra e analisando o que ele chama de "o jeitão do sofredor".

De acordo com a cara, a roupa e a pressa do homem ou mulher, ele se aproxima, faz algumas perguntas para sondar se a pessoa está interessada em pagar para ir embora logo. Se concordar, ele dá algumas instruções sobre o que deve falar.

"É um macete que eu inventei pra não ter protesto nem briga com aqueles que já estão há muito tempo na fila e reclamam de quem entra na frente deles. O truque é o sujeito ou a mulher chegar no lugar onde fica um dos meus filhos e dizer "Obrigado, Zé, por guardar o lugar, pode ir agora". Ou então, se for mulher, "Obrigado, filho, me espera na porta que eu já volto", revela Sidenor. Ele explica que essas são apenas duas das muitas "senhas" que usa para evitar confusão nas filas.

Preços e caras

Os preços pelas vagas, diz Sidenor, variam muito, "depende da cara, da roupa e da pinta do freguês".Em média, as vagas custam de 1 real a 20 reais, ou até mais. As taxas mais caras, de acordo com ele, são cobradas daqueles que ele chama de "a turma da chefia,os milionários que ganham o máximo". Esses são os que recebem de aposentadoria o teto máximo permitido por lei, isto é, R$ 1.380,00.

Depois de oito anos no negócio de "guardador de lugar em fila", Sidenor garante que conhece à distância quem é "chefia ou pé-de-chinelo". Pelo jeito de andar, pela roupa, pelo ar de orgulho, metido a gente importante, e até pelo cheiro. "Esses ricaços são perfumados, de cara boa, bem alimentados, dá pra perceber logo na entrada. Se eu não exagerar no preço, eles topam logo a oferta, geralmente 10 e até 20 reais", confessa Sidenor.

"Uma vez tive a sorte de pegar um senhor doutor, alta chefia alta mesmo, morrendo de pressa, que veio para recadastrar. Cobrei cinquentinha, ele nem reclamou, pagou logo. Mas esses são raros por aqui, a maioria mesmo é a turma dos 50 centavos, do um real".

Sidenor conta que seu "negócio" já teve dias muito mais lucrativos, quando chegava a ganhar até 400 reais. "Teve um mês que faturei uma nota preta mesmo, quase 700 reais, com a ajuda dos filhos. Foi uma festa. Mas era no tempo da bagunça e das filas que não tinham mais tamanho. Agora, as coisas andam mais organizadas na aposentadoria, as filas diminuíram e o lucro caiu bastante", ele diz. "Mas ainda dá para faturar uns trocados. Ainda bem. Ganhando a miséria que eu ganho na aposentadoria, só mesmo com um extra desse. Agora, imagine o pobre diabo que recebe o mínimo e não tem bico nenhum".