Nossos dramas na noite

Uma das roupas mais bonitas que eu tenho é um casaquinho verde importado, lindo, que custou uma nota e por isso é o que eu mais gosto. Mas não é só pelo preço. Nossa profissão, como diz um amigo meu escritor e jornalista (e cliente), é a mais antiga do mundo. Só de brincadeira, ele costuma explicar que a segunda profissão mais antiga do mundo é escrever sobre a primeira, ou seja, o jornalismo. É um gozador muito sacana, e gosto muito dele. Mas o assunto da coluna não é meu amigo. Se vocês soubessem o que a gente é explorada e perseguida todas as noites por todo mundo, acho que iam entender a nossa vida melhor.

Quando não é pra tomar dinheiro é pra perseguir a gente e expulsar de perto de residências de alguém importante.Então, nós andamos pra lá e pra cá procurando os pontos mais movimentados e melhores. Uma noite de sábado, que é uma das melhores para conseguir clientes, eu estava no centro da cidade, na porta do cinema Esperança, que é o nosso ponto mais antigo, quando um carro parou bem em frente e um cara fez sinal com o dedo me chamando. Vi logo pela cara e pela placa que era coisa pra me queimar e me prender, ou então me tomar dinheiro. Como não sou boba nem nada, saí correndo, e o cara saltou do carro e veio atrás de mim.

Eu estava de salto alto e não conseguia correr direito e aí eu entrei na primeira loja que encontrei. Só vi quando o cara passou correndo na rua direto e nem olhou pra onde eu estava. Mas fiquei com medo que ele ia voltar.

Então sentei num banco, bufando de cansada e veio uma moça da loja perguntar o que eu queria. Pra disfarçar, eu disse que queria ver uns casaquinhos. Ela foi lá dentro buscar e eu de olho na rua, vendo se o tal cara ia voltar. A moça trouxe um monte de casaquinho e eu me apaixonei por um lindo, verde e caro. Fiquei quase uma hora enrolando e experimentando os casacos e esperando o perigo passar na rua. Acabou saindo certo, só que o casaco custou uma nota e por tudo que eu passei ele é um dos meus prediletos até hoje.