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Candidatos
vão do céu ao
inferno na caça ao eleitor
Por
Carlos Puzzo
Talvez
por acreditarem mais no esotérico e nas crendices e cada
vez menos em si próprios e na inocência ou ignorância
do eleitor, muitos candidatos estão pedindo ajuda a todos
e a qualquer coisa para se elegerem no segundo turno. Valeu tudo
na disputa por um lugar na Câmara ou na Prefeitura. Candidatos
apelaram para Deus, o diabo, santos, pais-de-santo, caboclos,
crendices, amuletos e o que mais pudesse ajudá-los. Em
várias capitais e centenas de cidades muitos consideravam-se
já eleitos com suas fórmulas mágicas. Os
resultados das urnas, porém, foram uma decepção
para a maioria. Os sobreviventes se preparam para nova batalha,
a do segundo turno.
Carlos Alberto Gomelli, conhecido no seu reduto eleitoral na Vila
Odair, zona sul, como Gomelinho Sarandi, um dos candidatos alternativos
a prefeito da Capital,conta que seguiu o conselho do sogro sobre
uma fórmula infalível para ser eleito: acender todos
os dias, à meia-noite, um palito de incenso e aspirá-lo
fundo quatro vezes durante dez dias antes das eleições.
Não só foi um dos últimos colocados como,
no quinto dia, sofreu uma intoxicação e até
hoje não recuperou o olfato, por causa do cheiro forte
do incenso.
O candidato a vereador Sidnei Falco, de 45 anos, por exemplo,
durante toda a sua campanha, num bairro operário de Porto
Alegre, não largava um amuleto em forma de gavião,
que ganhou de um nativo numa viagem de estudos a Adis Abeba, Etiópia.
"O homem me disse que se eu esfregasse o amuleto todo dia
no lado esquerdo da cabeça meu sonho seria realizado",
garante Falco. "Como queria ganhar, esfreguei esse troço
diariamente por mais de um mês. Não consegui me eleger
e até hoje minha cabeça está doendo, de tanto
esfregar."
Aldo
Bugiardo, candidato a vereador, na zona norte do Rio,diz que apelou
para uma crença popular em busca da eleição.
"Não deixei de comer lentilha, nhoque e milho verde,
após a meia-noite, para dar sorte, fiz de tudo para ter
sucesso." Aldo, segundo os últimos resultados, foi
eleito, mas pagou um preço alto: está 25 quilos
mais gordo.
Por sua vez, Carlos Galhardo Gonçalves, que tentou uma
vaga de vereador em Belo Horizonte, apelou para a religiosidade
em seu reduto na zona leste. "Se Deus está com Galhardo,
quem pode estar contra?", foi seu slogan. Mesmo com "cabo
eleitoral" tão especial, não conseguiu se eleger
e teve uma das votações mais inexpressivas em seu
bairro. Apesar da derrota, Galhardo não perdeu o humor
e, conformado, explica: "Pelo jeito, nem Deus estava comigo".
Receita infalível
Maria Geralda Gallina, que buscou sem sucesso a reeleição
a vereadora na zona leste da capital paulista, apoiou-se em outra
crença: usou calcinha roxa e meias pretas sempre que ia
aos comícios. Ela garante que sua falecida avó,
bailarina no Rio de Janeiro na década de 20, lhe apareceu
uma noite mês passado e afirmou que, se a neta usasse as
duas durante um mês, seria facilmente reeleita. Após
ficar entre as últimas colocadas, Gallina afirma que não
perdeu a confiança em sua popularidade no bairro, mas,
sobre a história da avó, diz entre os dentes: "Ela
devia ser uma maluca, dançando para os homens da época
com meias pretas e calcinha roxa".
Gabriel
Fango, candidato a prefeito de Morro de Deus,no interior paulista,
conta que ia diariamente ao cemitério local e beijava sete
vezes o túmulo do mais popular prefeito que a cidade já
teve, Juvenal Apassito. O motivo é que uma vidente local
garantiu que ele seria eleito se visitasse o túmulo e o
beijasse.
Fango perdeu a disputa para seu rival, o advogado Emílio
Gola, que, bem mais pragmático, pode ter resumido a receita
ideal e infalível para ganhar eleições, não
só em Morro de Deus como em qualquer lugar: "Quem
elege a gente são os amigos e uma boa verba de campanha".
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