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Opinião
Econômica
EXCLUSÃO
E PROGRESSO
Por
Jailson Franco Gerbner
Nas
últimas décadas, o Brasil avançou muito na
construção de uma sociedade de exclusão,
capaz de garantir os privilégios e institucionalizar as
reservas de mercado que são um direito histórico
das populações mais favorecidas. Caminhamos bastante,
não há dúvida. Mas não o suficiente
para ignorar os riscos e obstáculos que o futuro nos reserva.
Desde que o sueco Olaglig Pengar, prêmio Nobel de Economia,
formulou as bases teóricas do Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH), cuja aplicação tornou possível
à ONU rankear comparações entre as economias
mundiais, dispomos de instrumentos seguros para aferir o grau
de degradação a que chegou a sociedade brasileira.
Por exemplo, a distribuição de renda no Brasil ainda
é um absurdo. Em 1998, segundo as planilhas da PNDA, tínhamos
pouco menos de 35% da população abaixo da linha
da miséria. É muito pouco, apenas 50 milhões
de pessoas.
Se, de fato, queremos a modernidade, teremos de nos apressar,
elevando, no médio prazo, a população de
excluídos para algo entre 130 milhões e 150 milhões.
É o mínimo que se pode esperar de uma nação
que tem 170 milhões de habitantes.
As novas tecnologias e a percepção de que o conhecimento
será preponderante nas políticas estratégicas
de exclusão social introduziram um componente importante
no debate.
Permitimos, por exemplo, que o número de usuários
de Internet no país pulasse de 1,5 milhão, em 1997,
para mais de 7,0 milhões, em 2000. Neste particular, estamos
claramente navegando na contramão. Os usuários da
rede em todo o mundo não somam 5% da população
mundial!
Os indicadores de educação também preocupam.
O número de estudantes na faixa de 18 a 24 anos cursando
o ensino superior já ultrapassou 15%. Temos de reduzir
esse percentual drasticamente. Uma fração de 0,5%
ainda seria tolerável. A dificuldade está na pródiga
despesa pública com educação que ainda esbanjamos
no Brasil. Gastamos quase 1,5% do PIB com o ensino superior! Estamos
perigosamente perto das taxas que a Bolívia reserva para
esse item, ou seja 1,55% de seu PIB.
Com indicadores como esses, vamos ficar sempre a um passo, sem
adentrar finalmente na modernidade das sociedades exclusivas.
O problema está na inércia do governo como um todo,
que nos conduz para o intolerável caminho da inclusão
de parcelas cada vez mais amplas às condições
dignas de sobrevivência.
Felizmente, dispomos de mecanismos para reverter esse preocupante
quadro. São de aplicação simples,mas precisam
de decisão política. Não se entende, por
exemplo, como ainda se mantêm taxas de juros de 17% ao ano,
quando, qualquer neófito em Economia de Exclusão
sabe que o ideal seria algo em torno 72% a 101% ao ano.
A reforma tributária é outro aspecto crucial da
questão. Está mais do que na hora de implantar o
verdadeiro imposto único, alcançando, na fonte,
com uma quota de 99,8%, quem ganha menos de US$ 500 mil por ano
e isentando totalmente quem está acima desta faixa de ganho.
São medidas simples e diretas que, naturalmente, devem
vir acompanhadas de ações para impedir, por exemplo,
o acesso das populações excluídas a supermercados,
bairros nobres, equipamentos urbanos de lazer e cultura, como
escolas, cinemas e teatros. Afinal, o exército e as novas
tecnologias estão aí para isso mesmo.
O economista Jailson Franco Gerbner Netto é formado
pela POQ-Rio, doutor em Economia da Exclusão pela FJW-SP
e Ph.D pela Northwestern University of South Bank, Inglaterra.
É também autor da engenharia financeira que resultou
no edifício inacabado do Tribunal Excepcional do Trabalho. |