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Pesquisa
no lixão mostra
a classe média em baixa
Por
Clara Filfeder
O
desemprego, a inflação, a queda na renda do trabalhador
e na qualidade de vida estão cada vez mais refletidos num
inesperado indicador da economia brasileira: o lixo. E não
se trata de aumento dos catadores em busca de resto de alimentos
e objetos para vender. O impacto maior é mesmo na classe
média.
A começar pela queda acentuada na quantidade do lixo recolhido
este ano na cidade, em confronto com o ano passado: menos 36%,
índice bastante elevado, segundo Salim Julião Phitta,
presidente da Federação Unificada do Lixo na Área
Metropolitana(Fulam), que reúne oito empresas concessionárias
no recolhimento e tratamento.
De
acordo com Phitta, o lixo aumentou consideravelmente, e acima
da média, nos bairros Jardim Prefeitura, Bosque dos Executivos
e Alameda Vereança, este último com alarmante elevação
de 78% em relação a igual período do ano
passado.
Ironia
"Coisa
curiosa", ele explica, "é que o aumento trouxe
também melhor nível do lixo, se assim podemos definir.
Nos centros de seleção, os lixos desses três
bairros são exemplos disso, provando que cresceu também
a qualidade de vida". Segundo o diretor do setor Seleção,
Separação e Análise, Roberto LeGarbage, "Estamos
encontrando coisas que nunca havíamos visto no lixo da
região. Como litros de uísque, vodca, tequila e
conhaques, em grande quantidade, e todos importados. E também
latas de caviar, patês franceses, cerejas, apricot, sucos
estrangeiros e caixas de doces e bombons. Vazios, naturalmente",
acrescenta LeGarbage com uma ponta de ironia.
Lixo menor
A
mesma qualidade não é encontrada nos lixões
situados nas zonas menos favorecidas da cidade, como Jardim Abdalah,
Bosque das Avencas, Bosque dos Azevinhos, Floresta dos Pinhos
e Buraco da Princesa, típicas das classes B e C. Neste
último, caiu não apenas a quantidade, mas também
a qualidade do lixo.
Para
explicar o que aconteceu, e analisar os resultados, -- embora
não tão cientificamente como LeGarbage --, ninguém
mais apropriado do que Cipião Eronides da Fonseca, que
há 30 anos vive catando coisas no lixão do Buraco
da Princesa e do qual extrai o sustento para a família.
"Paguei
as contas todas que devia, eduquei quatro filhas e um garoto,
comprei um carrinho e a casinha que eu moro, tudo isso graças
ao lixão. De lá tirava o sustento da esposa e das
crianças. Hoje, mal arranjo dinheiro para sustentar a família.
Não sobra nada, nem para tomar umas pingas de vez em quando",
queixa-se o catador de lixo.
"Antigamente,
tudo era mais fácil.Quantas vezes já encontrei garrafas
pelo meio com pinga da boa, tênis quase novos, tamancos
que nunca foram usados e até uma caixa importada, cheia
de figos cristalizados, e o melhor, bem na véspera do Natal",
relembra Cipião . "Hoje, se encontrar um iogurte fechado,
um sabonete pouco usado, uma galinha de macumba, um lápis
ou até uma banana quase inteira, eu fico feliz".
Ele
prossegue: "Agora não dá mais ficar por aqui.
Depois de 25 anos de luta dura, pedi ajuda ao vereador Benjo Kamazuchi
para me arranjar um empreguinho. Se não conseguir, vou
tentar me mudar para um dos três lixões de luxo.
Lá a vida é boa, mas a batalha vai ser dura, porque
os melhores pontos já estão tomados".
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