Uma obra suprema

Quando seu primeiro filme foi lançado comercialmente entre nós, em 67, o indonésio Unta Malas já era nome respeitado em toda a Ásia e parte da Oceania. Obras como "Tjiriti", "Kol Kembang" e o poético e delicado "Tikus Besar" já haviam encantado o mundo e ganho os principais prêmios em festivais internacionais.

Como sempre, obras exponenciais de realizadores que não fazem parte do chamado "mainstream ocidental e hollywoodiano" são boicotadas pura e simplesmente pela máquina insaciável e voraz dos exibidores ávidos de lucro. Quando essas obras de exceção conseguem escapar do jugo capitalista, desse cruel limbo, acabam espantando o mundo com temática ousada e revolucionária.

Felizmente, críticos como este que assina esta apreciação e poucos outros, independentes e indomáveis (quatro deles merecem ser citados aqui, como o francês Jean-Marc Ennuyeux, o israelense Schabbes Marid, o croata Bolestan Podzemna e o finlandês Tuuli Paisti), são o que podemos chamar de "solitários guardiões da cultura". Graças a eles e à entidade que fundamos o ano passado, a MOVIE (Movimento de Vanguarda Internacional de Entretenimento), o incomparável cinema do Terceiro Mundo Alternativo começa a se libertar dos grilhões do limbo cultural a que foi relegado.

Este maravilhoso e desafiador "Tjuka" ("vinagre" em indonésio) é dos primeiros frutos do nosso movimento acima citado. Como bem definiu outro crítico francês da vanguarda independente, Jean-Richard Saucisse, sem favor, o maior da atualidade em todo o mundo: "Há todo um trespassar da alma, de idéias, teses, filosofias e denúncias em poucas centenas de fotogramas(o filme tem apenas 46 minutos) e numa trama que, de início, aparentemente simples, e até simplória, pouco a pouco se adensa e se desdobra em ramificações e meandros que nos remetem a pelo menos cinco correntes filosóficas e psicanalíticas orientais e ocidentais".

Prosseguindo, o iluminado crítico francês desdobra sua tese: "Daí, a insistência do diretor Unta Malas em mostrar árvores, muitas árvores, frondosas ou secas, de galhos retorcidos e longos, e aquela bananeira-ícone, que ele focaliza em nada menos que 25 cenas. Nos últimos anos, não me recordo de nada tão belo, simbólico, desafiador e amargo do eterno confronto Oriente-Ocidente e da ausência de comunicação entre esses dois mundos. Isto é cinema-filosofia, é kino-profundo, igual, ou superior, eu ousaria afirmar, ao dos cineastas máximos da atualidade, o turco Kebap Saka e o japonês Kiichigo Kamiyui".

O que mais se pode acrescentar a essa aula de erudição, sensibilidade e ousadia do crítico francês? Eu diria, nada, ou quase nada. Apenas que filmes de exceção, enriquecedores da nossa mente e espírito, como este, enobrecem a cultura, a própria humanidade e, sim, este nosso pobre, medíocre e sofrido Terceiro Mundo.